Eu perdoo você por isso. Você vai me perdoar também?

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O bipe do micro-ondas soou três vezes enquanto meus olhos estavam fechados. Eu os abri e peguei a xícara lá dentro, queimando levemente meus dedos pela falta de jeito. Não havia nenhuma garrafa no armário de bebidas, ou eu faria um drinque para mim.Caminhei lentamente até o quarto dela e tudo o que eu podia ver era os lenços que ela usava compulsivamente enquanto chorava atordoada. Nenhuma lágrima era derramada dos meus olhos. Meus sentimentos estavam escondidos lá dentro e dançavam dentro de mim, mas eu não era capaz de expressá-los.

-Você é um monstro! – ela disse.

Me aproximei e toquei o seu rosto, com um carinho que eu não sabia exatamente de onde vinha. Apenas um dos corações ali estava partido, o outro há muito tempo estava blindado.

-Todos nós somos! – eu respondi, enquanto lhe entregava sua xícara de café. Ela a segurou sem queimar os dedos. De algum lugar, vinha uma música sinfônica triste… Ou talvez ela soasse apenas na minha mente.

Era hora de ir, era hora de sair da bagunça. Deveria deixa-la com seus lenços e sua xícara quente e cheia que logo ficaria fria e vazia. Eu deveria fazê-lo para que ela fosse capaz de se reconstituir, ainda que aos trancos e barrancos. E aos trancos e barrancos, também era a situação em que eu me propunha a seguir sem ela.Quando comecei a da r pequenos passos para trás em direção a porta, ela iniciou seu discurso:

-Você se acha tão perfeito, NÃO É? Pensa que pode continuar machucando as pessoas e simplesmente se safar toda maldita vez? Já tinha me avisado sobre você… Não sei porque diabos não escutei… – ela gritou e sem seguida passou a sussurrar num tom baixo o suficiente para que apenas nossos ouvidos escutassem – Deveria ter escutado, deveria ter escutado….

Subitamente, me afastei da porta e me aproximei dela, afastando os fios de cabelo que envolviam o seu rosto cheio de lágrimas.

-Eu não sou perfeito. – eu disse calma e pausadamente – Você também não é. Eu perdoo você por isso. Você vai me perdoar também?

-Não… – ela sussurrou baixinho.

Olhei para seus olhos e lhe alcancei um lenço. Sabia que ela precisaria.

-NÃO, NÃO, NÃO! – gritou, enquanto meus pés voltavam para o lugar pelo qual deveriam caminhar: em direção à porta.

Eu a abri vagarosamente, enquanto me envergonhava de seu choro e de seus gritos. Não apenas por ela, mas por mim também. De vez em quando achamos que as pessoas estão na mesma página que a gente, mas elas não estão.

-VOCÊ NÃO ESTÁ INDO EMBORA, ENTENDEU? PODE ATÉ SAIR, MAS VAI VOLTAR RASTEJANDO AOS MEUS PÉS! – ela imperou, gritando como nunca havia gritado antes. Me sentia mal por seu coração partido, mas sabia que não era a causa deles.
Enquanto me dirigia a saída ouvi ela dizer baixinho:

-Você se alimenta das lágrimas dos outros… É o que você faz. – disse, enquanto encarava a xícara de café preto em suas mãos e eu via os lenços de papel usados sendo levados pela brisa da janela atrás dela.

Eu deveria dizer algo para ela, não deveria? Deveria dizer que eu não era a causa daquelas lágrimas e que o drama não me faria voltar. Deveria me defender, mas não o fiz. Talvez ela precisasse se forçar em acreditar nas suas próprias palavras para aceitar que eu de fato estava indo embora sem partir meu próprio coração.

Quando deixei a sua casa ainda podia ouvir:

-Vamos lá, escreva sobre isso! Faça de mim um personagem para suas historinhas ridículas! Eu te odeio! – e aquilo continuava, enquanto eu me afastava. Mas a cada passo que eu dava, tudo o que eu podia ouvir eram os sussurros.

Ouvi a xícara quebrar. Não sabia se ela havia a derrubado no chão acidentalmente ou se a havia jogado na parede num gesto de raiva insatisfeita. Era uma criatura feroz que estava acostumada a partir corações, mas não a ter o seu partido ao meio. Quando uma pessoa tem seu coração partido, ela renasce mais forte. O luto pode durar algum tempo, mas não dura a eternidade. Somos seres complexos que levantaremos a cada vez que encontrarmos o chão.

Olhei para minhas pernas. Não adiantava ela dizer para que elas parassem e voltassem. Não adiantaria nada que eu dissesse para que elas parassem e voltassem. Aquele era um ponto final, entendendo a sua necessidade ou não, partindo de mim ou não. Era um adeus, sem que o adeus precisasse ser dito. Minhas pernas eram levadas por algo maior do que eu ou do que ela. Elas se moviam porque tinham que se mover.
O celular começou a tocar no meu bolso e ficou frio. Se meu coração não estivesse blindado essa seria a hora de atender e voltar, mas isso não aconteceu. Simplesmente permiti que um sorriso crescesse em meu rosto enquanto eu olhava para a lua e removia delicadamente a bateria do aparelho.

-Isso é pra você e pra mim! – eu pensei comigo mesmo.

Caminhei noite adentro, sem conseguir me lembrar de quantos adeus eu tinha dado nos últimos meses. Aquele era apenas um, de tantos que eu não queria ter dado. Mas dava-os mesmo assim, pois eram necessários… Enquanto tantos outros “adeus” tinham deixado de ser dados. Não trocaria aquele ponto final por uma vírgula.

Cheguei em casa e preparei um drinque que coloquei próximo a minha cama, sem precisar beber um gole. Tudo o que eu ouvia era o som a xícara quebrando. Pensava em como ela se sentia, mas pensava ainda mais em não estar lá para confundir seus sentimentos. Deixei que aquele adeus fosse seu maior presente, ainda que eu tivesse a certeza de que nunca receberia um “obrigado” ou ao menos um olhar de gratidão por ele. Vida longa e próspera a todos os corações que um dia foram partidos. Eles precisavam ser. Não é um experimento, é a realidade batendo em sua porta.

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