Quando você é pego desprevinido

desprevinido

Quando eu fui dormir, já estava claro. E eu não dormi muito, parecia apenas ter piscado os olhos. Quando eu acordo, faço o café e acendo um cigarro. Fiz o café, mas senti falta do café dela. Acendi um cigarro, mas senti falta do jeito que ela docemente roubava alguns dos meus cigarros pela manhã para ir trabalhar. Até mesmo fui ver as notícias para me distrair, mas não dizia nada sobre ela, então não me interessei. A primeira coisa que me veio á mente quando acordei, foram aqueles imensos olhos verdes.

Voltei para cama e dei um gole no café. Mesmo dormindo pouco, eu tinha dormido o suficiente. Talvez aquela leve piscada de olhos tivesse algum motivo. Olhei para fora da janela e vi a chuva. Ah, a chuva! Ela faz com que nós façamos loucuras. Lembrei da vez que andei até a casa dela completamente bêbado e com a cara vermelha. Lembrei até mesmo do palavrão que ela disse quando me viu na porta.

Peguei meu telefone na mão e então ouvi a chuva sussurrar no meu ouvido: “Vamos fazer alguma coisa idiota?”. Disquei o número dela que acidentalmente havia decorado, mas não liguei. Era tarde demais para ligar, ou talvez cedo demais. Nunca sabemos ao certo. Se o sol estivesse no céu ele provavelmente diria: “Ora, vamos pensar em outra coisa”.

E como poderia eu esquecer por meses e do nada lembrar? Meu coração é uma bagunça, minha cabeça outra bagunça. Juntos, somam uma bagunça meio organizada. Ainda assim, uma bagunça. Não tão bagunçado quanto já estive, mas quem nasce do caos tem a tendência de viver dele. E aquele tipo de caos me dava paz. Deixa que chova, deixe que lembre. É incrível como a ausência ás vezes torna as pessoas presentes e a presença ás vezes torna as pessoas ausentes.

Entrou uma brisa gelada e quando fui dar o segundo gole no meu café ele já estava frio. O tempo não perdoa ninguém. Olhei para uma nuvem cinza e pensei na brincadeira que os deuses pregavam em mim. Mandavam-me as loucas, as lunáticas, as obsessivas. Mandam-me até algumas parecidas com ela. Mas elas ainda assim tem um defeito: Não eram ela, apenas versões pioradas dela. Ou talvez, eu assim as enxergasse.

Fiquei ali, bolando alguns planos mirabolantes, pensando besteira. Talvez tivesse uma lição naquilo tudo. O universo parecia gritar comigo, como se meu único propósito na vida fosse pensar no que eu faria a respeito. Meu coração implorava por ação e minha cabeça implorava por inação. Eu, no meio desse fogo cruzado, sem saber o que fazer.

E eu fiquei ali por algumas horas. Apenas pensando, lembrando. Minha mente foi longe, muito longe. Meu coração batia… Daquele jeito. Daquele jeito que ninguém mais conseguiu despertá-lo. Por quantos dias mais seria ela a dona dele? Talvez mais uma semana fosse o suficiente para o mero esquecimento.

Mas eu não me sentia mal. Algo me dizia que eu ainda estava melhor que ela, ainda que ela não pensasse em mim. Estava feliz por conseguir me lembrar, feliz por ser capaz de resgatar algo sem qualquer sentimento negativo. Não tinha medo de perder, pois já havia perdido. Pensei em ganha-la de volta, mas não tinha a menor pressa. Talvez amanhã, talvez nunca. Acima de tudo, me sentia bem por realmente sentir algo. Talvez ela, talvez outra. Naquele momento, não tinha direito de nada. Nem obrigação de fazer nada. Sentia-me bem com tudo aquilo. O que seria meu ou não, pouco me importava. Talvez o tempo de solteiro tivesse me amolecido ou talvez meu coração estivesse ficando grande demais para caber no meu peito. Pouco importava.

Apenas ficava ali… Senti uma sensação parecida com a primeira vez que a vi. Amor á primeira vista, pela segunda vez. Percebi que olhava para dentro de mim: Ela estava lá. Não tive pressa para que estivesse do meu lado.

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