Qual foi o pior término de relacionamento que você já teve?

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Você nunca sabe quando o fim irá chegar. Me lembro do pior término que eu já tive. É daqueles que você repete em sua mente constantemente por algum motivo. Você provavelmente já teve um desses e deve estar se lembrando dele agora.

Me lembro de estar saindo do trabalho naquele dia, me lembro exatamente de como eu olhava para os céus como se algo estivesse prestes a acontecer… Mas eu não sabia o que. A gente nunca sabe. Me lembro de entrar em uma floricultura e escolher a dedo cada uma das flores que eu levaria para a minha garota quando chegasse em casa. Me lembro exatamente de cada uma das flores selecionadas, embora não lembre os seus nomes. Me lembro de ter pago a conta com notas dobradas que poderiam muito bem ser a sobra da “cachaçada” da noite anterior.

Ah, é importante contar que ela já estaria no meu apartamento quando eu chegasse lá. E também é importante contar que as flores não eram nem um e nem vários pedidos de desculpas. Simplesmente queria fazer um agradinho para alguém de quem eu gostava.

Eu sei o que você está pensando quando lhe conto que eu estava chegando em casa com um buquê de flores e virei a chave na porta do meu apartamento. “Ah não, ela vai partir o coração dele”. Esvazie os seus pensamentos, essa não é “mais uma daquelas histórias”.

No momento em que eu virei a chave na porta eu já podia ouvi-la lá dentro e algo dentro de mim mudou. Tudo era muito… Familiar, entende? Existem esses momentos em qualquer relacionamento que o põe a prova. Quando eu abri a porta, ela estava lá com uma expressão inconfundível de agrado, olhando para o buquê. Eu também olhei para ele e vi a besteira que tinha feito.

Por alguns instantes simplesmente ficamos nos olhando. Então ela veio e colocou os braços sobre mim e eu lhe entreguei as flores. Não vivíamos juntos, mas ela estava lá em casa com frequência, o suficiente para encontrar um lugar cuidadoso no apartamento minúsculo em que eu vivia na época entre a pia e o fogão, onde as flores repousaram majestosamente.

Eu não disse uma palavra, enquanto ela disparava palavras como uma metralhadora. Falava sobre tudo e eu não conseguia entender nada. É um daqueles momentos da vida em que você fecha seus olhos e não está naquele lugar naquele momento. Você está em algum outro lugar, o qual desconhece.

E de repente, você abre os olhos e sente um baque que o traz de volta para o presente e você pega uma dessas frases cortadas pelo meio:

-… e olhe bem ao seu redor! – disse ela sorrindo, enquanto dava voltas pelo apartamento.

O lugar estava limpo como nunca esteve antes. Tudo arrumadinho, organizado, cada coisa em seu lugar… Com um toque de mulher… Aquele toque que um homem (por mais organizado que seja) nunca será capaz de dar.

-Uau, você limpou! – eu disse, e por dentro comecei a me sentir um tremendo babaca, por razões que eu desconhecia. Tudo o que eu sabia é que naquele momento eu a via como se fosse minha esposa ou algo assim.

Desajeitadamente, fui até a geladeira e – SURPRESA! – ela também tinha feito as compras. E ela tinha comprado minha cerveja favorita. Peguei uma e andei cabisbaixo até ao quarto, com ela me seguindo com seu discurso animado sobre o quanto nosso relacionamento era maravilhoso e o quanto eu fazia ela se sentir uma pessoa melhor.

Sentei na cama e acendi um cigarro, enquanto bebericava minha cerveja. Era minha cerveja favorita, mas por algum motivo ainda tinha um gosto amargo… Como se ela tivesse comprado por amor e amor não era o motivo pelo qual eu estava bebendo. Amor nunca é o motivo pelo qual a gente bebe, digam o que quiserem.

-O que você tem? – ela perguntou.

-Sei lá! – eu respondi, mas já sabia o que eu tinha. Aquela sensação tinha sido uma presença no fim de todos os relacionamentos. Aquele momento em que você sabe que as coisas vão terminar, mesmo que não tenha um motivo pelo qual elas terminem. Você simplesmente sabe no fundo da sua alma e tenta escolher suas palavras com cuidado, tenta não dizer… Mas você sabe o que vai acontecer em seguida.

E naquele momento você vê o rosto da outra pessoa se transformando. Ela também já sabe, ainda que não admite e em algum nível acredite que aquilo não vá acontecer.

-Bem… Posso dizer algo? – ela perguntou.

Simplesmente bebi um gole da minha cerveja. Quando um homem bebe, ele aceita.

-Bem… – ela disse, olhando para os cantos do quarto como se estivesse procurando respostas – Eu sei que as coisas não estão sendo um mar de rosas… Mas tudo vai melhorar… Está bem? Eu vou melhorar!

Bebi outro gole e dei a desculpa mais velha da história (embora na maioria das vezes, seja verdadeira):

-O problema… O problema não é você… Sou eu… – balbuciei, me sentindo ainda mais idiota por dizer aquilo. – Talvez você devesse simplesmente pegar as suas coisas e me deixar pensar por alguns dias… Eu não sei…

-Cansei de esperar alguns dias! – ela disse, parecendo decepcionada – Pessoas não são brinquedo… Eu estou aqui e estou decidida… Quem não decidiu foi você!

Eu sequer estava ali. Como poderia decidir alguma coisa?

Simplesmente mantive meu silêncio. Não posso ressaltar o bastante: não havia nenhum motivo claro e gritante para que as coisas tivessem que acabar naquele dia. Havia apenas uma pequena parte de mim que dizia que aquilo não poderia continuar e era aquela parte que eu estava ouvindo. Aquela pequena parte dizia apenas que aquilo deveria terminar, mas não dizia o motivo. Como eu poderia me explicar para ela se não conseguia nem explicar a mim mesmo?

E tudo o que havia era o meu silêncio. Quando levei o cigarro ao cinzeiro, parte das cinzas acabou indo para o chão. O chão estava limpo como nunca esteve. Ela teve um trabalhão deixando o lugar limpinho e cheiroso e aquilo não estava ajudando. Mas ali estava: aquele pequeno punhado de cinzas, o toque masculino que põe tudo a perder.

Não sei quanto tempo passou, mas lembro de ouvi-la dizer alguns minutos depois:

-Só… Diga algo… Ok?

Nos olhamos nos olhos pela primeira vez.

-Eu… Não sei nem ao menos por onde começar!

Ela sorriu.

-É claro que você sabe. Você sempre sabe como afastar as pessoas que querem o seu bem! – e num súbito ataque de fúria começou a arrumar todas as suas coisas.

Ela tinha uma gaveta só dela. Você sabe… É o tipo de coisa que fazemos por uma pessoa que fica mais tempo em nossa casa do que na dela própria. Ela tirava as coisas da gaveta e as jogava novamente, furiosa.  Parecia estar procurando uma arma.

De repente ela arrancou a gaveta dali e a jogou no chão. Algumas de suas coisas caíram no chão, mas a maior parte delas continuou lá dentro.

-Você sempre soube como afastar as pessoas que te amam! – ela disse, e todo aquele ataque de fúria foi resumido por uma pequena lágrima que saiu do canto de seu olho.

Eu não sou um babaca completo. Sei que deveria me aproximar dela, enxugar aquela única lágrima e lhe dar um abraço reconfortante. Sabe qual o motivo de eu não o fazer? Aquele abraço logo viraria um beijo e aquele beijo logo viraria nós dois nos deitando na cama e nós dois nos deitando na cama logo viraria ela levantando e colocando a gaveta no lugar com todas as coisas dentro. Fingiríamos que aquilo nunca tinha acontecido e continuaríamos adiando o inevitável.

E eu fiz o que talvez eu fizesse de melhor: nada. Simplesmente cruzei os braços enquanto fumava um cigarro. Ela ficou olhando para mim, esperando por uma resposta que não vinha… Esperando para que saísse algo de mim que realmente não estava ali. Digo, eu realmente gostava muito dessa garota, mas eu não a amava.

-Não se preocupe, eu mando alguém pegar as minhas coisas! – disse ela, e logo aquela lágrima foi enxugada por suas próprias mãos e ela saiu em disparada dando fortes golpes no chão com sua sapatilha.

Ouvi ela jogar a cópia da sua chave com força e com ainda mais força ouvi ela bater a porta. Tinha acabado, mas eu ainda podia ouvir suas palavras… Ainda podia me lembrar de sua performance quase teatral e da expressão descontente e frustrada em seus olhos. Realmente me senti mal, ainda que estivesse de braços cruzados.

Pode acreditar: o pior término de relacionamento que eu já tive não veio da melhor mulher que eu tive na vida, não veio da mais gostosa ou da mais inteligente e nem mesmo da mulher com quem eu pretendia me casar. O pior término de relacionamento que eu já tive… Foi aquele em que me foi dita a verdade.

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4 comentários sobre “Qual foi o pior término de relacionamento que você já teve?

  1. Gente, fiquei boquiaberta! O jeito com que você encaixa perfeitamente cada palavra, numa ordem única que elas fazem significado em cada frase disso tudo. E como cada encaixe surpreende, com história que dá uma catarse louca aqui. Cara, você tem O dom. Parabéns!

ComentAnderson

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