Páginas amassadas & portas que se abrem nas madrugadas

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Eu bati sua porta às três da manhã. Demorou algum tempo para que ela abrisse. Estava eu completamente louco ou era apenas impressão minha? Luzes acenderam, a porta abriu e eu não disse nada.

-Anderson, tá tarde pra caralho!

Eu não disse nada por alguns segundos. Ela estava com uma camisola azul bebê e eu podia ver suas pernas brancas se escondendo atrás da porta.

Primeiro soltei apenas um “arghhh”. Depois eu disse:

-Escrevi algo!

-Que bom. Eu disse pra você que deveria escrever mais. – ela respondeu, dando um bocejo que eu admirei como se contemplasse o bater das asas de um anjo.

-Aqui está! – eu disse, tirando as páginas que tinham acabado de sair da impressora, todas dobradas no meu bolso sem a menor delicadeza.

-Você quer que eu leia? – ela disse, soltando seu primeiro sorriso. Era por isso que eu estava ali: por aquele sorriso. Cacete, eu vivia para ver sorrisos como aquele.

-Quero! – eu disse, tentando endireitar as páginas.

Ela as apanhou e fechou a porta. Interpretei aquilo como um sinal, pois não ouvia a chave virar na fechadura. Achei que abriria a porta e iria beber vinho com ela, enquanto transávamos e eu lia as páginas amassadas para ela deitado em sua barriga. Fiquei realmente surpreso ao ver que a porta estava trancada.

-Vá embora! – ela disse, como se segurasse uma gargalhada dentro de si.

Passaram-se dois dias e eu já nem me lembrava daquela cena, nem me lembrava do que estava escrito naquelas páginas amassadas ou da porta trancada. E ela apareceu na minha casa, com as páginas amassadas:

-Eu amei! – ela disse – Posso entrar?

A porta já estava bem aberta. Fomos até o quarto e sentamos na cama, enquanto ela divagava (parecia bastante bêbada) sobre o que havia encontrado naquelas páginas.

-Você sabe… – ela disse – Eu realmente acho que você é um babaca durante a maior parte do tempo… Mas existem esses momentos em que você me surpreender!

Ela colocou as páginas amassadas sobre a cadeira, deitou-se e disse:

-Esse é o Anderson que eu quero ver. Aquele ali! Não o babaca que bate a minha porta às três da manhã de pinto duro e com bafo de cerveja! – ela disse – Acredite em mim: você é o que você escreve.

-É o mesmo babaca! – respondi.

Não, não dormimos juntos naquela noite. Ela fez o tipo “hoje não” e foi embora, mas ela nunca mais me olhou do mesmo jeito. Fiquei feliz com aquilo, fiquei feliz em ser visto pelo que realmente sou, pelo que realmente posso ser. Insisti para que ela levasse as páginas com ela, como recordação… Mas nunca as li e não sei sobre o que falava nelas. Decidi que era melhor assim, por mais que minha curiosidade sobre mim mesmo definhasse sobre cada um de meus fios de cabelo.

Se aquele era eu, iria encontrar o caminho para mim mesmo novamente.

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