“Essa cidade vai te comer vivo” – me disseram, enquanto eu a comia pelas beiradas

Foto por: Augusto Janiscki Junior

Foto por: Augusto Janiscki Junior

Me lembro de ter chegado na capital, colocado minhas malas ao lado da cama e ter saído para procurar um bar. Eu estava sozinho e meu bolso estava um pouquinho mais cheio do que está nos dias de hoje, mas todo dinheiro do mundo não me pagaria o prazer. Deixar tudo para trás, pela centésima vez. Gostava da liberdade, gostava do vendo que batia em meus cabelos e nos fios da minha barba enquanto o calor se tornava quase imperceptível.

Me lembro de achar um bar com cadeiras vermelhas, ter pedido duas garrafas da cerveja mais barata e apenas um copo. Lembro de ter olhado a garçonete nos olhos e ter lhe arrancado um sorriso. Também lembro que o cigarro que eu havia fumado na estrada e havia jurado ser o último havia se transformado em uma carteira novinha. Abri-a: 20 novos amiguinhos, que poderiam durar menos tempo do que eu imaginava.

Me lembro de uma garota sentada com um grupo de amigos. Me lembro dela me devorando com seus olhos. Ah, sim…. Me lembro daquele olhar. Também me lembro dela estar acompanhada e de ter deslizado por algumas mesas até ter coragem de me pedir um cigarro.

-Você fuma?

-Só em ocasiões especiais.

Me lembro de sua expressão quando ela viu o filtro amarelo. Não era o que ela esperava, mas ela sorriu e se sentou mesmo assim. Me lembro dos olhares do cara que a acompanhava. Pobre coitado! Me lembro de ter acenado para ele e pedido para que sentasse conosco em minha mesa, pois afinal as minhas duas garrafas já tinham se esvaído em minha garganta. Lembro de ter sugerido que ele pagasse as próximas duas. Ele o fez, mais para conseguir a atenção dela do que a minha. Pagou as próximas duas e as duas depois dessa. Não adiantou, ela continuava me devorando com os olhos enquanto eu lançava sorrisos debochados para ela.

Me lembro também do cara tentando me deixar nervoso.

-Você parece um cara legal… Essa cidade vai te comer vivo! – repetia ele, criando um pouquinho de coragem a cada gole. Assim como ela, tudo o que ele ganhava era um sorriso debochado.

“Mas bem…” – eu pensava comigo mesmo: “Veja só… Mal cheguei aqui e já tenho alguém me pagando cervejas, enquanto sua acompanhante está com a mão na minha perna… Talvez nenhuma cidade pudesse me comer vivo. Talvez fosse eu quem a tivesse que comer pelas beiradas. E adivinhe só? Eu acabei de recuperar o meu apetite”.

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