O amor não é para principiantes

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Recentemente resolvi espalhar alguns pontos finais por aí. Quero dizer… Existiam até então três garotas com as quais me encontrava pessoalmente, bebia até não poder mais e as levava para cama. Sem amor, sem ligações no dia seguinte, sem apego, sem sofrimento. Não me importava com o que elas fariam quando saíssem da minha cama pela manhã e elas não se importavam com o que eu faria quando a calada da noite me chamasse novamente. Nunca me senti intimidado mas algo passou a me incomodar naquelas relações.

Digo, falamos em sexo casual, certo? Mas qual poderia ser o sentido do sexo casual quando tudo se torna monótono e previsível? Eu sabia que eu poderia levá-las para a cama quando bem entendesse e elas sabiam o mesmo de mim. Onde estava a dúvida? Onde estava o desafio? Ah não, nobres crianças… Podemos até suportar sexo sem paixão, mas nunca sem emoção.

Comuniquei minha decisão para elas. A primeira sequer a questionou, simplesmente me deu um longo abraço e disse “Fazemos isso de novo na próxima vida”. A segunda fez de conta que não se importou, mas me perguntou os motivos e mandou um papinho fiado sobre não querer estar com ninguém e tudo mais e que gostava do lance “conveniente” que tínhamos. “Conveniência não tem nada a ver com sexo” – pensei comigo mesmo. Pensei, mas não disse.

Com a terceira as coisas foram um pouco mais interessantes. Em primeiro lugar, pois das três ela era a mais especial. Era a única com quem eu conseguia conversar. Lembro que transávamos e jogávamos videogame noite adentro até que o sol me avisasse que era hora de ir embora. O segundo aspecto que tornou esse “ponto final” mais interessante foi que optei por fazê-lo pessoalmente. Havia bebido com um amigo e passei na frente do apartamento dela enquanto voltava para casa na madrugada de ontem. Joguei umas pedrinhas na janela, mas ela não respondeu. Mandei uma mensagem para que ela olhasse para fora e ela o fez. Sorri e acenei. Esperei por alguns segundos até que ouvi o barulho da portaria abrindo.

-Bem, vamos lá! – pensei comigo mesmo – Você consegue fazer isso. Você não vai partir o coração dela, você não vai partir o coração dela. Não se atreva a partir o coração dela, filho da puta!

Eu entrei e ela me disse “Que surpresa!”. Preparou duas taças de vinho e começou a tirar a blusa. Por mais que eu quisesse ver aqueles seios branquinhos e os mamilos perfeitamente rosados que apenas havia encontrado nela, a impedi de tirar a roupa. Pois é… Algum tempo atrás eu transaria primeiro, terminaria depois (no melhor estilo atirar primeiro e perguntar depois), mas algo dentro de mim havia mudado. Sentia a vontade de ser um perfeito cavalheiro com aquela mulher.

-Bem, isso é novidade! – disse ela sorrindo.

-Novidades… Eu tenho algumas! – eu disse.

O fato de não termos um relacionamento sério facilitava bastante as coisas, mas ainda assim eu queria mantê-la por perto. Escolhi as palavras com sabedoria e não dei o falso discurso “não é você, sou eu“, por mais verdadeiro e pertinente que ele pudesse ser. Eu poderia ver o olhar de surpresa que ela me dava enquanto as palavras saiam da minha boca. Lembrava das pequenas coisas que fazíamos juntos e demos umas boas risadas.

-Então… – ela disse – Pensei que “isso aqui” estava funcionando… O que só pode me fazer pensar uma coisa…

-Me diga.

Outra mulher! – ela disse, sorrindo. Senti que ela havia ficado com um gosto ruim na boca depois de dizer aquilo, pois ela ficou com a expressão de quem havia comido algo muito amargo. Talvez ela estivesse provando de um veneno que ela mesma criara em sua mente.

-Isso importa? – eu a perguntei.

-Não… Sim… Quer dizer… Eu não sei… Nunca me importei de você ficar com outra mulher. Nunca quis saber a respeito, mas eu sempre soube que acontecia e nunca me importei… Mas… Eu não sei… É estranho pensar a respeito… Você quer namorar ou algo assim? Pensa que achou a mulher da sua vida? Algo do tipo?

O grande problema é que eu não sabia o que responder. Sim, havia outra mulher… Mas quando surgia uma mulher, eu não costumava perder a vontade de ter todas as outras para mim. Senti minha luxúria sendo reduzida à meras palavras. Dentro de mim meu coração me dizia: “Você pode fazer isso”.

-É só que… Não, não há nada sério… Não há nada ali, creio eu. Pelo menos não agora… Mas… Mas… – eu balbuciei, olhando no fundo de seus olhos verdes. Não, ela não estava nem remotamente apaixonada, mas algo naquela conversa a incomodava bastante. Talvez, assim como eu, ela não gostasse de despedidas. Dei um gole no suco da coragem e então conclui:

-A questão não é ser algo sério ou não… A questão é que eu acho que ela me estragou para as outras mulheres. Eu não quero ninguém, por mais que eu quisesse continuar querendo ter todas, você entende? Talvez inconscientemente eu esteja tentando melhorar minhas chances com ela ou… Talvez os anos tenham feito de mim um cara decente… – eu disse, rindo asquerosamente.

O amor não é para principiantes… – disse ela – Faça o que você tiver que fazer… Mas nunca espere nada de volta, ok? Faça o que manda teu coração, sem buscar recompensas.

Ela acendeu um cigarro e o depositou no cinzeiro, como se dissesse “Você nunca será um cara decente”.

-Último beijo? – perguntou.

-Último beijo. – respondi.

E foi o que aconteceu.

Ela ainda me olhava com olhos de “Você vai voltar. Você sempre volta” mas senti uma leveza na alma. Três mulheres com quem eu dormia e consegui deixar tudo às claras. Nenhuma delas me odiava. O frio havia voltado para a cidade. Tudo o que eu sabia é que pela primeira vez me dei melhor com uma situação dessas do que eu esperava. Talvez os anos tivessem me tornado um bom ex-amante.

E ali estava eu, acendendo meu último cigarro enquanto voltava para casa. Eu não ganharia nenhuma medalha por dispensá-las. Não esperava por nenhuma recompensa e não esperava nem mesmo que aquela mulher desse valor para aquilo se soubesse, por mais que de certa forma ela fosse parcialmente responsável por tudo aquilo. Botei a mão sobre o peito e senti a leveza da alma novamente. Era estranho e confuso o sentimento de fazer a coisa certa de vez em quando. Estranho, confuso e bom.

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