Manifesto: o lobo, o cordeiro & seus propósitos

manifesto2

O que me move por aí?
Tento entender
Olho para os meus pés
(Não são eles)

Olho para os pés dos outros (e eles não me interessam)
Pergunto a mim mesmo se o vento me carrega
Mais um filho perdido da mãe natureza
(Sequer me lembro de como ela é)

Continuo fazendo perguntas
Querendo que as vozes na minha cabeça se calem
Tudo o que elas trazem são mais perguntas

Queria estar num abismo
E talvez esteja
O que me trouxe até ali?
Certamente não os meus pés

Eu controlo para onde vou?
Eu decido ser o que quiser?
Uma vez no abismo, posso tanto me jogar quanto posso levantar voo?

Certamente não é um dia qualquer
Num rito de zombaria, começa a chover
Pela primeira vez em muito tempo sinto a dor
E não sei a quem recorrer

Nunca me disseram que o pior inimigo do lobo solitário é a solidão
Sempre tivera sido uma amiga
Na beira do abismo, se revela inimiga

Minhas patas de lobo me levaram até ali?
Minhas presas de lobo?
Minhas garras?
Ou meus passos de cordeiro?

Qual deles sou eu?
Peço que as vozes se calem
Elas não me obedecem
“Você está no inferno” – dizem
Dão risadas. Não rio com elas.

Tudo o que me resta é a página em branco.
Também a caneta com pouca tinta.
Meu bolso dói. Minha alma também.
Quem dera doesse apenas a alma…

Não penso nas soluções
Penso nos problemas
Eis meu problema

E eu não dormi ontem,
Sinto que preciso ser punido
Pra poder dormir novamente
E quem melhor para me punir
Do que a velha página em branco?

Suas linhas me julgam
Pego o celular
Queria ligar pra ela
Mas não quero a perturbar

Mais uma cerveja. Mais um cigarro. É isso que me move?
Vício? Ego? Autodestruição?
Sou uma bomba relógio
Quem estiver por perto, se afaste por favor
Vou explodir, uma vez que preciso de amor

Página após página vou bebendo
Querem saber o que estou escrevendo
Não posso contar a elas
Pois dois não podem manter um segredo

Passa uma mulher bonita
Eu sorrio, ela sorri de volta
Vejo que nossos sorrisos mentem
Ora, mas sou um lobo
Não escolho a hora de mostrar minhas presas

Segue a chuva e me obrigo a ficar no bar
Agora estou preso naquilo que já chamei de “lar”
Sinceridade, sua sacana, por onde se escondeu?
Não senti sua falta, mas não permito que se vá
Fique e me assombre mais um pouco
Você me deve, pois sem você sempre fui menos louco

Me disseram que eu era o diabo outro dia
Acreditei
E fiz o trabalho dele naquela noite

Desejo não ter ninguém por perto
Exceto se for alguém com um abraço quente
(Ou o garçom, com outra cerveja gelada)

Penso nas noites de maldade
Nas noites de pecado
Não me arrependo de nada
Exceto de não estar ao seu lado

Continuo flertando com a página em branco
Ela ainda me esconde um segredo
E ela não me contará
Se esse for meu desejo

É estranho beber sem comemorar
Sempre há algo, não é?
Bem, hoje não há nada para comemorar

Talvez no fundo do copo haja esperança
Mas lá vem o garçom assegurando o que já sabia
Nenhuma esperança nos alcança

Odeio quando os demônios saem para brincar
E tomam minha mente como lar
Mas não é tão ruim que eu precise os expulsar

Sobre o mundo
Sou injusto por me sentir injustiçado
Tento falar sobre tudo
Antes de perceber que tudo é amaldiçoado

Penso, mesmo parado. Estou indo para algum lugar
Quem sabe para o lugar errado

Lá vem as vozes de novo
Não peço que se calem
Elas falam baixinho
Que me encontrariam até em Marte

Reparo que os anos passam rápido
22 e envelhecendo
Céus! Até as crianças envelhecendo
E um dia elas nos seguirão para o túmulo
(Pois não estamos ficando mais jovens)

Um cara entra no bar
Nos olhamos, não acenamos
Me pergunto se ele já viu alguém morrer
E talvez ele se pergunte o mesmo

Eu deveria dormir, comer. Para de fumar, beber.

Se eu tivesse um pingo de juízo
Queimarei essas folhas
E ninguém jamais lerá isso

Peço mais uma cerveja
Quantas mais o corpo aguenta?
É como se brincasse de roleta russa comigo mesmo
A arma está carregada
Mas as balas não tiram de mim meu veneno

Privação de sono, privação de amor
Todo o resto em abundância
Que ironia, não?
Parece que previ tudo quando deixei de ser criança

Os aviões estão caindo por aí
Um bocado de gente pior do que eu
Mas eles e eu não vimos as mesmas coisas
E provavelmente entre nós há um Deus

Cerveja após cerveja
A chuva vai morrendo
Das perguntas que fiz antes
Lentamente, vou esquecendo

Por um segundo paro e sinto meu coração
Se estou vivo, qual a reclamação?
Eis o que me trouxe aqui onde estou
Esquecer de ouvir o palpitar do eu coração

Se não houvesse uma mulher na minha cabeça seria mais fácil
Mas a mão que alimenta todo o meu amor
Também alimenta todo o meu ódio

Estranhamente, me sinto calmo
Não ha nada a perder

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