Para ouvir meu coração mais uma vez

domingo na floresta meditação

Tudo o que eu sabia era que eu precisava de um dia diferente: apanhei algumas roupas velhas e as coloquei na mochila. Deixei os cigarros em casa e carreguei comigo pouquíssimo dinheiro. Não passei nos bares… Sequer olhei para eles. Não me importava nem um pouco o que acontecia na cidade. O que me interessava era o que acontecia dentro de mim. O único problema é que eu ainda não sabia o que estava ali.

Em pleno domingo, fui procurar um lugar isolado. Tinham me dito sobre essa trilha que me levaria até uma grande árvore secular. Lá não se podia ouvir nada exceto o canto dos pássaros e o barulho do vento nas folhas. Era exatamente disso que eu precisava: o completo isolamento do mundo físico, apenas por um dia. Tentei me lembrar da última vez que tinha embarcado em uma jornada comigo mesmo, mas não consegui.

Não havia tempo para frustração. Foram três ônibus e mais de uma hora e meia de caminhada até eu chegar lá. Na minha mochila carregava algumas frutas, incensos e um caderno com as páginas amassadas. Dentro de mim levava o silêncio e a capacidade de compreender. Nem mesmo me importei em ter esquecido a minha caneta em casa e não ter sido capaz de escrever.

E é claro, também levava comigo todas as minhas inquietações… O inegável apego da condição humana, a dependência do físico, do material… A abstinência do espírito me perturbava. Fazia muito tempo que eu não ouvia realmente o que meu coração tinha para dizer. Senti a falta de conversar com ele. Ele tem paciência até demais…

Troquei minhas roupas e percebi que tinha cometido um erro também ao não levar um agasalho e um repelente de mosquitos, mas nada me impediria de ter uma longa conversa com minha própria consciência. Quando fechasse meus olhos, todas as minhas inquietações se revelariam: todas as armadilhas do ego, todas as pequenas mentiras que eu provavelmente contava para mim mesmo. Não temia que a mentira se tornasse uma verdade. Temia que a mentira permanecesse como mentira.

Deitei não muito confortavelmente próximo da grande árvores secular. Ela não era tão grande quanto eu esperava, mas era mais bela do que meus olhos podiam contemplar. Me senti unido com aquela árvore: firme, forte, pronta para encarar tempestades e os ataques mais nefastos.

Quando finalmente fechei meus olhos, coloquei delicadamente minhas mãos sobre a terra e senti a pureza que existia ali. A mesma pureza existia em mim e em todos os seres que existiam. Como podemos estar tão ocupados para sermos capazes de perceber isso?

-Muito bem, universo! Me diga o que você tem para mim! – eu pensei comigo mesmo. A resposta do universo é o silêncio que nos obriga a nos comunicarmos com a nossa alma. Enquanto pensamentos coloridos substituíam os pensamentos cinzentos que antes estavam ali pensava sobre as flores. Elas brotavam ao meu redor e eu não podia fazer nada a respeito. Da mesma forma brotava o amor, o perdão, o contentamento. Não podia fazer nada quanto a isso, eu jamais iria controlar a natureza. Nem a minha, nem a que estava ao meu redor.

Não demorou para que aparecesse um longo sorriso em meu rosto. Existe essa consciência coletiva a qual todos temos acesso, mas acabamos nos esquecendo de como visitá-la. Tudo o que existe quando nos conectamos com essa inteligência superior é luz. Não existem problemas, existem soluções. Não existe ódio, existe amor. Não existe descontrole, existe equilíbrio.

Meus dedos entraram na terra por conta própria enquanto eu ouvia o cantar dos pássaros e o ventos das árvores. Também podia ouvir serpentes rastejando e outras criaturas da floresta que ali estavam. Não temi nada que pudesse acontecer comigo enquanto estava naquele transe. Tudo o que eu fazia era me conectar com tudo aquilo. Eu não era um intruso da floresta. A floresta não era estranha para mim. Éramos um, uma vez que ambos estávamos conectados com algo muito maior.

E é no silêncio que tudo o que você espera se revela para você. Eu estava no vento, eu estava na terra, eu estava no verde das árvores. Eu não era parte daquilo tudo. Eu tinha me tornado um com tudo aquilo. Não havia singularidade, apenas o plural. Aquele sentimento esteve dentro de mim o tempo todo, que tipo de egoísmo teria me feito ignorá-lo?

Passei duas ou três horas ali. Sequer tinha levado o meu celular comigo para saber por quanto tempo tinha estado ali ou em quanto tempo iria anoitecer, mas quando você está na natureza e conectado com aquela consciência superior… O tempo não tem efeito sobre você. O tempo perde a importância. O frio perde a importância. Os sons perdem a importância. Tudo o que existe é aquele estado de espírito. Cogitei a hipótese de entrar floresta adentro e ficar ali por alguns dias, mas eu não poderia fazer isso. Existe muito a ser feito. Trato apenas de deixar aquele lugar como meu recanto. O levarei dentro de meu coração.

Seja qual fosse meu caminho… Se aquela energia me acompanhasse, não haveria nada a temer.

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