Que morra a escuridão para que as luzes possam nascer mais fortes

324234

Com o peito ensanguentado e sem saber exatamente o motivo de tudo aquilo, o homem apanhou uma pá e começou a marchar em direção ao cemitério. Cavou três covas. Sequer se lembrava de seu nome, de onde vinha ou porque seu peito sangrava. Tudo de que ele se lembrava era dos movimentos que suas mãos faziam enquanto empunhava aquela velha pá enferrujada com seu cabo de madeira devorada por cupins. Ainda assim, algo estranhamente certo se fazia presente em seu peito ensanguentado.

Aqueles buracos lá no chão não nasceram para que o homem se deitasse neles e para que algum outro homem cobrisse-os com terra, dizendo algo do tipo “Pobre coitado, foi tão cedo”. De fato, o homem não se dividiria em três e não teria três funerais para si mesmo. Ele viveria para sempre. Esse era o motivo dos buracos no chão: a eternidade.

Quando os três estavam milimetricamente cavados o homem se aproximou do primeiro buraco, tirou um pouco do sangue que escorria de seu peito e jogou ali dentro como se estivesse performando alguma espécie de ritual. Então ele disse:

-Aqui enterro meu egoísmo. Aqui enterro os meus medos e a minha falta de fé. Aqui enterro aquela minha velha mania de me preocupar com tudo e aquela minha velha mania de botar defeito onde não há. Aqui enterro meu inferno particular, desejando que ele próprio tome conhecimento da luz e do paraíso.

Feito isso, o homem começou a jogar a terra de volta no buraco. Um pequeno sorriso esboçava-se em seu rosto, como se houvesse algo simbólico na morte de seu egoísmo. De fato, ele só esperava que ele estivesse morto, mas não duvidava de que ele poderia retornar como se fosse um zumbi.

Quando a cova estava coberta por terra o homem então se aproximou do segundo buraco. Arrancou de dentro de seus olhos uma única lágrima, lançou-a na cova e disse:

-Aqui enterro o sofrimento desnecessário. Aqui enterro todo o meu arrependimento e minha frustração pelo fato de o mundo não ser exatamente aquilo que desejo. Aqui enterro o meu pecado e o meu desejo de ver o sangue jorrar. Aqui enterro todas as vezes que deixei de falar aquilo que deveria ter falado e todas as vezes que não ouvi aquilo que deveria ser ouvido. Aqui enterro a última lágrima de meus olhos, que de tão cegos não foram capazes de enxergar aquilo que estivera bem na frente deles o tempo todo.

Feito isso o homem cobriu com terra o segundo buraco. Seu sorriso tivera ficado maior, na medida que tinha percebido que o mundo era exatamente como ele deveria ser, independentemente dos desejos de um, de outro ou até mesmo de si próprio. Decidiu não dar a si mesmo tanta importância como um dia já o fizera. Passou então a escavar o terceiro buraco.

Então, suando por todo o esforço que tivera feito o homem tirou com os dedos uma única gota do suor que nascia em sua testa e a jogou lá, dizendo:

-Aqui enterro tudo o que me impede de ser livre. Aqui enterro tudo o que já disse antes, a minha identidade e tudo aquilo que me disseram que eu era um dia e que por alguma tolice do destino acabei acreditando. Aqui enterro aquilo que impede que meu coração pulse do jeito que ele nasceu para pulsar, aqui enterro minha obsessão pela escravidão. Aqui, nesse buraco enterro minha última gota de suor. Aqui, enterro a quem eu pensei ser um dia.

Feito isso, o homem tampou a terceira e última cova e quando terminou simplesmente permitiu que aquela velha pá escorregasse por suas mãos cansadas. Ali, nascia um novo homem. Ali, evoluía um homem que nunca tinha acreditado no progresso. Ali, morria a escuridão para que a luz pudesse nascer mais forte.

Anúncios

ComentAnderson

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s