A mulher que me fez ouvir a música

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Não dá pra gente ficar sentado em casa esperando o nosso coração sarar, precisamos sarar ele por nossa própria conta – em algum bar da cidade. Agora, eu tinha terminado meu relacionamento há pouco tempo e dentro de alguns dias meu telefone tocou. É incrível o quão rápido as notícias correm por aí quando são notícias ruins.

Não reconheci o número, mas reconheci a voz do outro lado. Tínhamos nos conhecido há alguns meses, quando eu acabara de chegar na cidade. Trocamos alguns beijos em minha terceira ou quarta noite por aqui, mas acabei sendo um completo babaca e trocando-a por uma amiga de uma amiga dela. Mesmo assim, ela nunca havia jogado aquilo na minha cara ou me tratado de maneira diferente. Admirava-a por isso, uma vez que poucas mulheres conseguiriam.

Encontrei com ela em um dos meus bares prediletos e as cervejas começaram a escorrer para dentro dos copos, como se estivessem atendendo a um chamado. Gostava de apreciar o jeito com o qual ela mexia em seu copo. De fato, tinha uma admiração por essa mulher como tiver por poucas mulheres em minha vida. Não digo que tenha me apaixonado por ela nem nada do tipo e tampouco achava que ela estaria apaixonada por mim, mas eu tinha uma grande admiração por ela enquanto ser humano.

Conversamos por horas, sem tocarmos em assuntos como o meu recente término ou aquela vez em que eu fui um completo imbecil, trocando-a por uma garota da qual nem sequer me lembro o nome.

Cerveja vai, cerveja vem. Papo vai, papo vem. Sorrisos vão, sorrisos vêm. Repentinamente, ela disse as palavras que eu estava certo que ela diria em algum ponto da noite:

-Quer sair daqui?

Eu não queria levá-la para minha casa, então fomos para a casa dela. No caminho, paramos para comprar uma garrafa de vodca que beberíamos alguns minutos depois: direto do gargalo, sem gelo e sem mistura.

Embora tenhamos quase de imediato nos jogado na cama, continuamos simplesmente a conversar – trocando elogios e sorrisos. Ela me mostrou a coleção de livros dela e aquilo deveria ser o bastante para eu me apaixonar: ela tinha muito mais Bukowski do que eu, muito mais Kerouac, muito mais Leminski. Ah, e ela também tinha um videogame no quarto (o qual nós não jogamos).

Apenas conversávamos e eu não tinha a menor pressa de saber no que aquilo tudo ia dar. Sempre achei que o momento que antecede o sexo por muitas vezes consegue ser melhor que o sexo em si e eu nem estava certo de que estaria preparado para fazer sexo de qualquer tipo naquela noite. Por ora, estava bastante contente pelo simples fato de estar conversando com alguém que me compreendia e me aceitava sem qualquer lapso de julgamento.

E enquanto eu olhava a felicidade estampada no seu rosto eu sabia que aquilo não poderia ser real. Ela estava prestes a se apaixonar, enquanto meus dedos se entrelaçavam com os seus. Eu definitivamente não estava pronto pra aquilo, o que quer que fosse que estivesse acontecendo.

Não. Eu não poderia partir o coração daquela garota e também não poderia usá-la como se ela fosse algum tipo de analgésico ou calmante. Digo isso porque eu realmente admirava aquela mulher. Não gostaria de ser um babaca com ela novamente.

Então, simplesmente abri o jogo. Falei que estava interessado – e estava, MUITO. Vocês deveriam ver aquela mulher – mas que não iria poder fazer aquilo nem com ela e nem comigo mesmo.

-Você está pensando que nós vamos… ? – ela perguntou.

-Você está? – retruquei

-Eu só queria lhe mostrar o que você perdeu – ela disse, enquanto desabotoava a camiseta – Só queria que você visse.

Ela não ficou inteiramente nua, mas pude contemplar a beleza de seu corpo. Ela tinha aquelas pintinhas estratégicas acima dos seios, exatamente um pouquinho antes do sutiã que os cobria.

-Eu te odeio pra caralho! – ela disse com o mesmo sorriso que manteve por toda a noite. Eu a entendia. Também me odiava pra caralho de vez em quando.

Ela me mostrou a saída.

Não, eu não poderia dormir com aquela mulher. Por mais que desejasse, estaria traindo a mim mesmo se o fizesse. Estranho, não é? Mais estranho ainda foi o fato de que eu passei a admirar ainda mais depois daquela cena. De fato, ela era algo a mais. Fiquei um pouco chateado com as coisas que aconteceram, mas não retruquei ao seu desejo de vingança. Ela tinha todo o direito de se “vingar” de mim, ainda que estivesse me fazendo alguma espécie de favor, mostrando que em algum lugar aqui dentro bate um coração que fala mais alto.

Fui caminhando para casa, bebericando a garrafa de vodca barata que havia surrupiado.

O que restara para mim naquela noite? Bem, eu tinha que ouvir a música em algum ponto. Poker? Bordéis? Voltar para o bar? Ligar para alguém? Arrombar a porta do seu apartamento e jurar de pés juntos que eu não era o mesmo cara que a havia trocado? Não, nada disso. Eu tinha que ouvir a música em algum ponto DAQUELA NOITE. Simplesmente fui pra casa: deitei na minha cama, li um pouco, passei algum tempo na internet – eliminando as últimas cervejas que eu tinha deixado na minha geladeira.

Bem, ali estava: a música que eu não queria ouvir, cortando meus tímpanos com uma delicadeza bruta e desagradável. Não gostava daquela música. Temia me acostumar com ela.

Deus, se estiver aí… Não permita que essa seja a minha trilha sonora.

Quanto a garota, devo simplesmente chamá-la de carma.

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2 comentários sobre “A mulher que me fez ouvir a música

  1. Não sei que tipo de bruxo és, mas você pode escrever até sobre a pior coisa do mundo ou do pior jeito que conseguir, porém ainda assim vou ficar encantada! Nem preciso dizer que esse texto está maravilhoso, não é?
    Espero mais atualizações!
    Beijos!

ComentAnderson

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