“Você deveria ler O Pequeno Príncipe”

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Desde que eu me entendo por gente, as mulheres que passavam por minha vida falavam daquele livro. Ficavam espantadas, ao saberem que eu nunca o tinha lido e com o meu descaso quando me falavam da obra. Não me interessava por ler um livro infantil, por algum motivo que desconhecia. Não achava que havia absolutamente nada a ser lido ali por mim. Talvez tenha sido o único clássico do qual eu verdadeiramente fugi.

A primeira vez que me falaram dele foi uma das primeiras mulheres com a qual tive “algo”. Por algo não me refiro a um namoro e a nenhum tipo de relacionamento. Tivemos algumas noites (ou tardes, melhor dizendo) nas quais compartilhávamos uma verdadeira conexão que infelizmente não se prolongou por mais do que um mês. Ela insistia que eu “precisava ler o livro”, mesmo sem conseguir me explicar o motivo.

Algumas mulheres depois dela (certamente, as mais marcantes) também me aconselharam a fazê-lo, sem despertar muito o meu interesse. Continuava com meus exemplares surrados de Kerouac, Bukowski e Salinger e não pretendia nem mesmo passar os olhos sobre ele.

Foi quando há cerca de um ano atrás me envolvi com essa mulher. Eu tinha 21 anos e ela tinha 32. Trabalhávamos no mesmo prédio – eu no 4º andar num descompromissado trabalho de redator e ela no último andar do prédio num trabalho muito mais dedicado de psicóloga empresarial. Nos encontramos algumas vezes no elevador e certamente demonstrávamos um interesse mútuo um pelo outro. Não demorou muito tempo até que ela começou a ler meu blog e logo, na noite em que demos nosso primeiro beijo em um bar da cidade em que eu morava ela me falou pela primeira vez sobre “O Pequeno Príncipe”. Desinteressado pelo velho discurso “VOCÊ PRECISA LER” acabei dizendo para ela que já tinha lido o livro.

Nossa “conexão” acabou sendo interrompida por forças das circunstâncias. Eu havia emprestado o meu exemplar surrado de Misto Quente de Charles Bukowski pra ela e na última vez em que nos vimos eu havia ido até o seu escritório para pegá-lo de volta.

-Tem uma coisa pra você aí dentro! – ela disse.

Tínhamos trocado alguns bilhetes e cartas nas quais tentávamos entender o que se passava com a gente. Estávamos profundamente atraídos um pelo outro, mas algo nos impedia. Talvez a diferença de idade ou o fato de virmos de mundos diferentes. Descartei ambas as hipóteses, pois ela tinha um espirito muito jovem. Talvez até mais jovem que o meu. De fato, o que mais me cativava nela – muito mais do que a notável beleza e a considerável inteligência – era o seu espírito.

Até hoje tenho o bilhetinho com um trecho do livro pendurado em minha parede. O arrastei para onde fui nesse período de um ano: duas cidades e cinco apartamentos diferentes. Sempre esteve comigo, mas ainda não cogitava o ler. Temia encontrar ali alguma explicação da qual eu não estava necessitado.

Recentemente, me envolvi com outra mulher que praticamente conhecia todas as palavras escritas no livro. Assim como as outras, ela também estava surpresa sobre o fato de eu nunca tê-lo nem ao menos folheado.

Ontem acabei embarcando numa jornada para encontrar o tal livro e foi bem mais fácil do que eu imaginava que seria. Levei-o, junto a quatro outros livros encontrados em um sebo na esquina de casa.

Após algum tempo, sentei-me na cama e passei a lê-lo entre uma cerveja e outra. Demorei quase uma hora para ler a obra toda. O resultado foi surpreendente. Gostaria de tê-lo lido antes, mas creio que apareceu no momento perfeito em minha vida. Identifiquei ali grandes características que levo comigo e muitos pontos que se assemelhavam com a escrita que disponho em meus trabalhos particulares (que preferem a boa e velha gaveta do que a publicação aqui no blog).

O que eu quero dizer é que às vezes as pessoas realmente sabem do que precisamos, por mais que não consigamos entender e não tenhamos em nós o desejo de que elas saibam. Talvez todos devessem ler o livro, mas senti minha alma profundamente conectada a cada pequeno detalhe que ali estava.

E sim, você provavelmente também deveria ler “O Pequeno Príncipe”.

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