Eu nunca te abandonarei – disse a ela, antes de abandoná-la

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A última “grande mudança” que eu tive em minha vida aconteceu no final do ano passado. Eu já estava a algum tempo vivendo na cidade que fica ao lado da minha cidade natal e já estava certamente saturado dela. Tinha me cansado da maior parte das pessoas que vivia ali, tinha me cansado do meu emprego e do meu apartamento e acima de tudo tinha me cansado de um bocado de gente achando que me conhecia sem nunca ter trocado uma palavra comigo. Tinha cansado dessas manias de cidade pequena, entende?

Lembro-me de passar várias noites desejando sair dali. Eu olhava para o teto, lia um livro ou assistia um filme sempre pensando “Cacete… Eu preciso dar o fora daqui”.

Nessa época eu me relacionava com alguém. Era uma garota bem legal e em apenas duas semanas tínhamos desenvolvido uma dinâmica de convivência bem interessante. Ela não fazia nenhuma demanda para mim e nem eu para ela. Sabia que ela estava apaixonada, mas eu estava saturado demais com aquela cidade para conseguir sentir qualquer coisa. Se fuga fosse um sentimento, seria tudo o que eu sentiria enquanto estivesse por lá.

Então, motivado por alguns acontecimentos corriqueiros decidi abandonar meu emprego, vender meus móveis e dar o fora o mais rápido possível. Largar o emprego foi a coisa mais fácil. Na época, estava rolando a Oktoberfest não muito longe da cidade em que eu morava e eu fui por dois dias seguidos. Atrasei-me nos dois dias seguintes de trabalho, sem dar a menor satisfação ou demonstrar o menor arrependimento por não estar ali. O decorrer do dia era baseado em não fazer mais do que o mínimo e esperar as pedras rolarem.

Uma semana depois, eu estava livre. Então me restavam duas coisas: eu tinha que me despedir daquela mulher para sempre, vender meus móveis e fazer as malas. Pensei que faria tudo exatamente nessa orla, mas as coisas não aconteceram exatamente como eu planejava.

Desenvolvi a mania de dormir até o meio-dia ou até as duas horas da tarde, dependendo da vontade. Acordava e bebia até a hora de dormir/desmaiar. Eu tinha uma carona para Curitiba programada para o sábado de manhã, dois dias antes do meu aniversário. Na quarta, eu não tinha nem terminado com ela, nem feito às malas e muito menos vendido meus móveis. Foi um momento daqueles em que “a água está batendo na bunda”.

Eu sabia que nunca mais voltaria para aquela cidade, então eu tinha que aparar todas as arestas e amarrar todos os nós antes de deixá-la. Então, tudo começou a acontecer rapidamente. Na quarta-feira anunciei todos os meus móveis para a venda e fiz minhas malas. Lembro que nesse dia ela me ligou:

-Está vendendo todos os móveis mesmo? Vai fugir de mim?

Continha-me a responder amargamente que nada estava acontecendo e que eu não estava indo à lugar nenhum. Mantive minha partida meio “em segredo” até mesmo das pessoas mais próximas. Todos sabiam que eu nutria o “fetiche” de botar o pé na estrada e dar o fora, mas conforme a data ia se aproximando me contive tão somente a sumir. Eu ainda aparecia nos barzinhos e fazia planos para dali a um mês, mesmo sabendo que eu não estaria mais presente. Fingi que ficaria ali pra evitar quaisquer perguntas e despedidas. São duas coisas que eu odeio: perguntas e despedidas.

De tal modo, foi somente na quinta-feira que comecei a vender meus móveis. Vendi quase todos eles, mas não todos. Bem, o que eu não conseguir vender… Que fique pra trás.

E foi na sexta-feira que no apagar das luzes consegui vender o último móvel. Aquilo tinha sido uma espécie de vitória que comemorei com um lanche bem gorduroso e com algumas latinhas de cerveja. Lembro de ter deitado num colchão de ar na sacada, enquanto meus cigarros iam acabando e olhava para as árvores que ficavam lá fora:

-Vou sentir falta de vocês! – eu disse – Mas nem tanta falta assim.

Móveis vendidos: confere. Malas feitas: confere. Carona para daqui a algumas horas: confere. Estava tudo no mais perfeito estado, até que me lembrei… Eu precisava terminar com a garota. Resolvi não fazer nada e simplesmente partir. Eu repito, tem duas coisas que eu odeio: perguntas e despedidas. Para terminar com ela, eu precisaria dos dois. Tudo o que estava em minha cabeça era a partida.

Eu estava exausto de carregar os móveis e quase caindo no sono quando meu telefone tocou. Era ela. Ignorei uma ou duas vezes, mas acabei atendendo:

-Está fazendo o que? – perguntou do outro lado.

-Quase caindo no sono… Você poderia ter mandado uma mensagem…

-Quer me ver?

-Estou exausto.

-Quer me ver?

Pensei por alguns segundos.

-Tudo bem. – disse.

-Eu vou até você ou você vem até mim?

Olhei para o apartamento vazio e para o maço de cigarros quase vazio.

-Eu vou até você! – respondi, desligando.

O apartamento dela não ficava tão longe do meu. Ela me esperava na janela e quando me viu na calçada mostrou uma garrafa de vinho e acariciou o seio esquerdo.

-Puta merda! – pensei.

A verdade é que eu tinha que entrar lá, ter uma conversa dura com ela e dar no pé. Minha carona estaria na porta do meu apartamento às sete horas da manhã e eu não poderia me atrasar.

-Suba! – ela disse sorrindo – A porta está aberta.

Entrei pelo condomínio e subi até o apartamento dela no segundo andar. Quando ela abriu a porta me dei conta do quanto ela era linda e do quanto eu era babaca por cogitar a hipótese de não vê-la no meu último dia.

-Estou exausto! – eu disse.

-Vamos nos deitar!

A segui até o quarto. Ela vestia uma camisola de seda branca e carregava o vinho e o saca-rolhas em sua mão. Eu fiquei pensando por algum tempo em como dizer a ela que aquela seria a última vez que ela me veria na vida, mas depois pensei melhor e simplesmente decidi aproveitar a nossa última noite juntos, sem estragá-la de jeito nenhum.

A surpresa agradável é que aquela foi a nossa melhor noite juntos. Secamos duas garrafas de vinho e todas as cervejas em sua geladeira. Ela cozinhou alguns bifes e tivemos um agradável jantar. Transamos, mas essa também não foi a melhor parte da noite. Nos relacionamos por algumas semanas, mas aquela foi a primeira noite na qual conversamos. Conversamos sobre a vida, sobre a morte, sobre o destino e sobre tudo o que havia sido colocado a nosso bel-prazer na face da terra.

Eu sentia que ela sabia que aquela era a nossa última noite e que tínhamos feito uma espécie de “voto de silêncio” a respeito daquilo. Não, ela certamente não me amava e eu tampouco amava a ela. Apenas desfrutávamos da companhia um do outro nas noites frias. Ambos éramos boas companhias quando estávamos bêbados e não era nada além disso. Ela, todavia, estava apaixonada e tinha deixado isso bem claro. Mas eu repito: ela não me amava. Eu poderia partir o coração dela, mas ainda assim eu tinha certeza absoluta de que não havia nenhum tipo de amor romântico entre nós dois.

Conforme o relógio ia passando os minutos e as horas eu sabia que tinha que ir pra casa. Em apenas quatro horas minha carona estaria na frente do meu apartamento e eu precisava estar lá. Tinha planejado todos os detalhes da minha “fuga estratégica” e qualquer atraso poderia ser catastrófico.

Ela ficou bêbada antes de mim, como sempre ficava. Não consigo esquecer até hoje de nossa última conversa.

-Já comprou móveis novos?

Eu sempre mudava de assunto quando ela falava sobre os móveis ou sobre a cidade. Pra bom entendedor…

Acabamos caindo no sono. No dia seguinte eu levantei às pressas e coloquei minha roupa.
-Tome o café da manhã comigo. – ela clamou.

-Não posso! – eu respondi – Tem um outro lugar em que eu preciso estar.

-Onde?

Sorri. Não respondi.

Eu ia saindo porta afora sem dizer outra palavra quando ela me chamou:

-Venha me dar um beijo!

Era um beijo de adeus, mas ela não sabia disso. Dei seu beijo e depois ela segurou minha mão junto à sua. Aquilo era estranho. Não costumávamos tocar nossas mãos nem mesmo durante o sexo. Repito: não havia amor ali. Talvez um lapso de paixão, mas não amor.

-Não me abandone! – ela disse firmemente. Aquilo era ainda mais incomum que o nosso constrangedor toque de mãos.

Não havia amor ali. Simplesmente a beijei na bochecha e disse:

-Não vou te abandonar!

(Apesar do título do conto, não usei a palavra “nunca”)

-Promete?

Minha resposta foi um sorriso. Coloquei o cinto e bati em disparada. Cheguei em casa, chequei minhas malas pela última vez e ouvi a buzina da carona lá fora. Juntei todas as coisas que eu levaria e coloquei o pé na estrada. A verdade é que durante todo o trajeto não pensei nela. Estava animado demais em deixar a cidade para trás para pensar sobre ela. Eu repito: não havia amor entre nós, apenas uma estranha cumplicidade que eu tinha acabado de trair.

Quando cheguei a Curitiba, apanhei o celular e liguei pra ela:

-Sinto muito! – eu disse.

Ela desligou. Ela já sabia o que tinha acontecido. Acabei recebendo uma mensagem extensa alguns dias depois, me confirmando que não havia amor ali mas dizendo que eu poderia ter falado com ela. No tom da mensagem eu percebi um certo “ódio” e considerei minha atitude uma espécie de traição.

Eu sou péssimo com despedidas. Não consigo tê-las. Nunca fui a uma festa de despedida e não desejaria que ninguém viesse se despedir de mim. As despedidas costumam intensificar os sentimentos. Gente que pouco fala com você tem a obrigação de dizer que irá sentir sua falta e mulheres que não te amam podem acabar pensando que te amam. O pior de tudo seria se ela pedisse pra eu ficar, mas não acho que pediria.

De qualquer maneira, eu estava em outra cidade. Novamente, um explorador desbravando um território desconhecido. E eu faria aquilo de novo até pouco tempo atrás, mas a verdade é que algo mudou dentro de mim. Não me sinto mal por tê-la abandonado ou por ter abandonado uma cidade sem dar qualquer satisfação pra ninguém. Meus motivos foram somente meus e ninguém poderia entendê-los exatamente. Todavia, eu acho que ela merecia um adeus, ainda que não me arrependa.

Hoje em dia não nos falamos mais. Conversamos algumas vezes depois do ocorrido, onde expliquei pra ela que eu era um “cara danificado” e que qualquer coisa que me parecesse com um compromisso me fazia correr. Alguns dias depois eu conheci uma pessoa e em pouco tempo estávamos namorando. Então, ela nunca mais me disse nada. Me bloqueou nas redes sociais e provavelmente nunca mais iremos nos falar.

É estranho pensar sobre isso. É estranho eu ter me sentido terrivelmente bem em ter pulado fora sem dar um adeus. Creio que “adeus” não é necessário quando não há amor. E eu odeio despedidas verdadeiramente.

Todavia, a instabilidade se rompeu. Eu não sou mais o cara que bate em retirada. Eu não preciso mais fugir. E se eu tenho um relacionamento hoje, certamente não quero que ele tenha um “adeus”. É estranho como vamos de “casual” a “pra sempre” em questão de meses. Tudo o que precisamos é de amor. O amor nos impede de ir embora. O amor nos impede de tomarmos decisões que certamente tomaríamos se estivéssemos sozinhos. O amor nos torna pessoas melhores. O amor nos faz querer ficar. Eu não estou indo para lugar nenhum, eu não penso em ir embora. Se algum dia eu precisar ir (e Deus queira que esse dia demore) preciso levar a pessoa que eu amo comigo.

Para todas as mulheres que magoei, digo que verdadeiramente sinto muito. E digo mais: o amor fez nascer uma outra pessoa no lugar daquela que um dia conhecestes.

Novamente irei me repetir: O amor é o que nos faz querer ficar. E eu agradeço por todos os “adeus” que já dei, tendo os dado da maneira correta ou não, pois foi graças a todos esses “adeus” que encontrei o amor.

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