O leão no seu caminho

lioninyourpath

Havia esse jovem índio que havia se apaixonado por uma índia de um tribo de outra parte da floresta. Ele a tinha visto duas vezes, pegando a água do grande riacho azul enquanto caçava. Na primeira vez ele não tinha certeza que ela teria o visto, mas na segunda vez seus olhos se encontraram. Ela de um lado do rio e ele do outro.

As leis dos índios não permitiam que o índio atravessasse o rio a nado, já que aquele território marcava o limite da tribo daquele índio e o outro lado do rio marcava o lado da tribo da índia pela qual ele tinha se apaixonado. Eles simplesmente ficaram ali se olhando por alguns instantes, até que ambos saíram correndo – não para se encontrarem no fim do rio, mas para fugirem de si mesmos.

Dias depois o índio decidiu que se casaria com ela, independentemente do que pensariam os outros índios das duas tribos. Pessoalmente, entalhou uma linda aliança feita com bambu e tomou a coragem necessária para se dirigir ao encontro dela e perguntar se ela desejaria se casar com ele na frente da grande árvore, onde todos os índios se casavam.

Ele quebrou a regra que conhecera desde menino e com dificuldades atravessou o rio a nado. A correnteza quase o levou, mas tudo o que ela conseguiu fazer foi atrasá-lo um pouco.

O índio então passou a caminhar por entre a floresta, procurando pelo caminho até chegar à tribo. Encontrou pequenas pegadas de mulheres e crianças e deduziu que aquele seria o caminho. O sol estava forte e por isso ele preferiu a companhia das árvores, ainda que conhecesse os perigos das matas. Sua lança de caça tinha ficado do seu lado do rio quando atravessara e por isso ele não tinha nenhuma forma de se proteger caso fosse atacado pelos índios da tribo vizinha.

Mesmo assim, ele topou enfrentar seu destino, apostando que os índios o tratariam tão bem daquele lado quanto lhe tratavam de seu lado do rio.

Em algum ponto de sua jornada, o índio passou a ouvir um barulho na mata. Ele olhou para um lado e para o outro, mas seus olhos pouco podiam lhe dizer se havia um inimigo ali ou não. Sentia-se ameaçado, todavia, com uma sensação de ardência no estômago. Mesmo assim, decidiu ignorar aquilo e seguir em frente.

Alguns minutos depois, quando ele já podia ouvir o barulho dos índios da outra tribo cantando, foi surpreendido por um leão.

Majestosamente, o leão saiu por dentre as árvores e se posicionou exatamente no caminho do índio. O índio não iria temer aquele leão, se estivesse com sua lança… Mas tudo que ele tinha carregado consigo era a aliança de bambu entalhada especialmente para a sua amada.

-Escute… – disse então o índio – Preciso muito passar por aqui! Preciso que você saia do caminho.

-Não estou em seu caminho! – disse o leão.

No silêncio, os animais falavam com os índios. sempre tentando lhes passar alguma mensagem – por isso a fala do leão não surpreendera nenhum pouco o jovem caçador.

-Então eu posso passar? – indagou o índio.

-Um passo à frente e devoro suas duas pernas! – disse o leão, bravamente.

O índio permaneceu imóvel. Em seguida disse:

-É meu destino que eu passe por onde você está!

-Então passe! – disse o leão.

-Sairá do caminho?

-Não, não sairei.

O índio tocou então a aliança de bambu e esperou por algum sinal vindo dos céus. Pensou no casamento que teria com a índia da tribo rival em frente à árvore matrimonial. Pensou, pensou e pensou.

-Bem… Pode me dizer apenas o motivo de você não querer sair do meu caminho?

-Não estou no seu caminho. – repetiu o leão.

-Não está?

-Não! – repetiu o leão firmemente – O que está no seu caminho é o medo. Eu permanecerei aqui, mas ao virar as costas você levará o medo com você. Sentirá medo de que eu o persiga e o devore. Sentirá medo de encontrar outro leão maior no caminho que o impeça de voltar para casa.

-E o que devo fazer?

-O que quiser.

O índio pensou um pouco, enquanto tocava a aliança de bambu. Desajeitadamente, acabou deixando-a cair e ela rolou alguns metros para frente.

-Posso pegar isso? – perguntou o índio.

-Pode. Mas se der um passo à frente, lhe devorarei as duas pernas.

O índio pensou por mais algum tempo. Ele não poderia lutar com o leão sem a sua lança e mesmo com ela aquele grande leão seria um temível adversário. Tentou apanhar a aliança com um pequeno galho e ouviu as risadas do leão.

Enfurecido, o índio disse:

-Qualquer dia desses vou lhe encontrar e vou arrancar sua cabeça!

O leão indagou:

-Por qual motivo?

-Por não ter saído do meu caminho.

-Nunca estive no seu caminho. – disse o leão.

Dito isso, o índio passou a caminhar de volta para o rio, o qual atravessaria ao retornar para casa. Nunca mais veria aquela índia e nunca mais veria o leão. Nunca mais veria a perfeita aliança de bambu que tinha entalhado e nunca mais voltaria a cruzar aquele rio em busca do amor.

Você vê? O leão nunca esteve no caminho do índio. Aquilo que estava parado em frente a ele e que o impedia de realizar o seus desejos era o medo e tão somente o medo. O leão era apenas um detalhe.

Na vida, não devemos nos preocupar com os leões que encontraremos no caminho. Devemos nos preocupar com aquilo que faremos quando encontrá-los. Você vive pela quantidade de leões que enfrenta, mas os leões que tu enfrentas não podem te matar verdadeiramente. O único leão que lhe mata é aquele do qual tu foges. Esse leão te mata por dentro, sem sujar as presas.

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