Est modus in rebus

lapsus linguae

Ele olhou penosamente para aquele muro, sabendo que era incapaz de atravessá-lo. Sentiu-se levemente impotente por estar sujeito às leis da física, enquanto fumava o último cigarro de seu maço, que desajeitadamente era amassado e colocado de volta em seu bolso.

O que lhe chamara a atenção naquele muro não era o grafite estrategicamente colorido que exibia Adão e Eva, Gandhi e a cena final de Clube da Luta. Sua atenção fora despertada por uma pequena folha de papel amarelada colada juntamente ao muro, que dizia: Est modus in rebus. Aquela folha não parecia estar ali há tanto tempo, mas já tinha sofrido o desgaste natural das chuvas de outubro.

Os minutos foram se passando e ele continuava olhando a inscrição naquela folha de papel surrada. Est modus in rebus: O que diabos é “Est modus in rebus“? Quem colocou aquilo ali?

Tirou os olhos da folha por um instante e olhou para o céu. Pensava que alguém tentava se comunicar com ele através daquela pequena inscrição em latim. Pensava que alguém lá no topo dos céus olhava de volta para ele, conhecendo-o melhor do que ele conhecia a si mesmo. Voltou então a encarar a folha de papel: Est modus in rebus.

Uma garota se aproximou dele, sem que ele percebesse. Vestia roupas vermelhas e o formato de seu rosto era contemplado pelo batom em seus lábios, com um tom vermelho enérgico e radiante.

-Latim. – disse ela.

-O que disse? – ele retrucou.

-É latim.

Mordiscou o lábio por um segundo, ao ver que a garota encarava a folha com o mesmo fascínio que ele, ignorando naturalmente Adão e Eva, Gandhi e o Clube da Luta. Tudo o que existia entre eles e tudo o que existia no mundo era aquela nobre folha surrada de papel com alguma inscrição em latim.

Est modus in rebus.

-Foi você quem colocou isso ali? – perguntou então.

A garota indicou que não fora ela com um aceno negativo de cabeça. Ele esperou algum tempo, enquanto seus olhos viajavam pelo tom vermelho enérgico das roupas e do batom daquela garota. Também tinha os cabelos vermelhos, tão vermelhos quanto uma brasa acesa.

-Mas você sabe o que significa? – continuou.

-Sim, eu sei o que significa.

-Pode me contar?

-Não existe nada que eu possa lhe contar que você não possa descobrir por si mesmo. – disse então a garota.

Ele voltou seus olhos à folha de papel: Est modus in rebus.

Pensou em desistir, na ausência de respostas. As pessoas sempre pensavam em desistir das perguntas quando nenhuma resposta lhes era concedida em um curtíssimo período de tempo. A garota vermelha guardava o segredo. Ela sabia o que significava a inscrição e a admirava como se estivesse intrigada com o seu significado.

-Você ao menos pode me dizer onde encontrar a resposta? – perguntou ele, por fim.

A garota sorriu. Seus lábios vermelhos se abriram e começaram a sair as palavras de sua boca:

-Isso é outra pergunta e novamente está tentando descobrir as respostas sem perguntá-las a si mesmo. Você está longe, tão longe do lugar em que deveria estar. Tão longe do teu coração que não consegue compreender aquilo que tu verdadeiramente deseja. As respostas estão ali – disse ela, apontando para o peito do rapaz – e elas também estão aqui – posicionou o dedo indicador no lugar de seu coração.

Dito isso, a garota deu de ombros e virou as suas costas. Em sua nuca, jazia a inscrição: Est modus in rebus.

Ele a admirou ir embora, com a inscrição estampada em sua nuca, quase escondida pelos fios do curto cabelo vermelho da garota. Se ela tinha as respostas, por que não simplesmente as entregou para ele. Se ela tinha a pergunta estampada em seu corpo, tinha a resposta e se ela tinha a resposta, tinha a verdade. Escondera o significado como se estivesse escondendo um crime que cometera.

Pensou em desistir novamente. Tocou o maço de cigarros vazio e amassado dentro de seu bolso.

-Tão longe… – repetiu a si mesmo em voz alta.

Tirou o maço de cigarros vazio de dentro do seu bolso e o segurou em frente aos seus olhos. Nele, havia uma grande marca de batom vermelho.

-Tão longe do lugar em que eu deveria estar. – disse a si mesmo em voz alta.

Tantas perguntas para a garota do batom vermelho. Soltou todo o seu corpo, deixando que o maço de cigarros que ostentava inexplicavelmente aquela marca de batom vermelho cair no chão. O vento chegou e arrastou o maço vazio até quase em frente da folha que continha os dizeres: Est modus in rebus.

Deu quatro passos calmos até alcançar o maço de cigarros e então passou a analisar a folha surrada mais de perto:

Est modus in rebus – dizia a inscrição em grandes letras.

Logo abaixo, pequenas letras miúdas revelavam-lhe a resposta:

(significa: há um limite entre todas as coisas)

Anúncios

ComentAnderson

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s