Notável sonho suicida

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Ele dormia em uma cama fria e já tinha escrito mais cartas de suicídio do que poderia contar nos dez dedos das mãos. Ao acordar, arrumava espaço entre as garrafas vazias e sentava-se em sua mesa consumida por cinzas de cigarro e embalagens de chocolates.

Alcançava então na gaveta uma longa faca de cozinha. Admirava seu brilho, ainda que ela não estivesse limpa. Apanha a caneta e o papel, escrevendo mais uma carta de suicídio. Depois, lança-a ao chão com todas as outras, tendo a certeza de que não havia nenhuma alma em toda a face da terra para quem pudesse as encaminhar.

Pensa sobre a comida que não tem mais gosto. Procura então alguma música no rádio, mas todas elas parecem iguais. O mundo o havia ignorado de uma forma tão solene que o enlouquecia.

Todos os dias pensava em roubar um banco ou em conseguir uma arma e entrar atirando em algum shopping center. Aquilo talvez pudesse fazer com que sua morte significasse alguma coisa, ainda que, de fato, não pudesse significar algo para ele. Queria ser notado, independentemente de ser notado por algo bom ou ruim. E o ruim sempre era mais fácil.

Respirou fundo e apanhou o último cigarro de seu maço, dando um longo gole na garrafa de conhaque que ali pairava por três dias. Nem mesmo aquilo poderia lhe fazer sentir algo. Nem chorava ao escrever suas incontáveis cartas de suicídio, nem chorava ao admirar o brilho de sua faca empoeirada.

Sabia que estava completamente louco e que o mundo seria bem melhor sem ele. Mesmo assim, fazia o mesmo todos os dias: Acordava, pensava em se matar e logo desistia da ideia. Saia então pela porta da frente procurando por algum bar na cidade que ainda estivesse disposto a manter uma conta para ele. Fingia que beber diminuía sua agonia, mas na verdade a bebida era apenas um pretexto para que tomasse alguma coragem.

Ao fim da noite, escreveria mais uma carta de suicídio e não se mataria. Ao fim da noite, se botaria de joelho, mas não rezaria. Ao fim da noite, repetia para si mesmo a mesma frase que lhe contava todas às noites: “Como eu posso me matar se nem vivo eu estou?”.

Nas madrugadas, quando o alcoolismo vencia a insônia… Ele sonhava. Sonhava com os mais belos lugares, cercado pela natureza. Mas ele sempre sabia que estava sonhando, pois a realidade não poderia ser tão bela assim.

O problema não era o mundo ao seu redor. O problema era ele próprio.

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