Lobos famintos

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Diz a lenda que havia esse homem que vivia nas florestas e que era capaz de lembrar-se de 500 de suas vidas passadas. Ele vivia com pouco mais do que um grão de arroz diário e a sombra de uma árvore. Passavam-se chuvas e sóis e ali jazia o homem, nutrindo nada exceto o próprio conhecimento. Havia abdicado às riquezas, aos amores, à sua própria identidade.

Um dia aquele homem iluminado deixara o seu cantinho abaixo da sombra d’aquela árvore e iniciou um passeio pela floresta. Sequer sabia se retornaria ao exato lugar em que estava ou se elegeria um outro lugar em meio à floresta para cultuar o conhecimento.

O homem começou a caminhar dentre a mata selvagem, avistando os animais. Ele encontrou um grande lobo branco, que rosnava em direção a ele com uma selvageria que nunca antes tinha visto.

-Ora, grande lobo… Por que ladras pra mim se eu venho em paz e tudo o que lhe quero é teu bem?

O lobo deu três pulos adiante, ficando bem perto daquele homem que procurava tão somente pelo seu lugar no mundo. Quando o grande lobo branco se aproximara, entretanto, o homem percebera que aquele grande lobo não o atacava com a intenção de devorá-lo.

-Me mostre o que eu posso fazer por você, então! – disse o homem.

Diante da sua incapacidade de falar ao homem com suas palavras, o grande lobo branco simplesmente olhou para trás. Seguindo seus olhos, o olhar do homem se desviou para um pequeno cantinho perto de uma caverna, no qual quatro filhotinhos de lobo, com pelagem tão branca quanto o grande lobo, descansavam.

-Ora, mas você não é um grande lobo branco sedento por sangue. Não me atacas por eu estar no teu caminho. Mostra-me teus dentes, pois precisa de alimentos para os teus filhotes! – disse então o homem, fazendo com que a grande loba branca cessasse seu rosnado em sua direção.

O homem caminhou em direção aos filhotinhos do lobo selvagem, vendo-os fracos e morrendo de fome. Olhou então para a loba, vendo que sua barriga há dias não consumira alimento algum.

Ele fechou os olhos por um instante enquanto a loba se aproximara. Ajoelhou-se perante à ela e lhe disse:

-Pois bem… Se esse é o sacrifício necessário por nosso encontro, vá em frente. Trocaria minha vida pela vida de teus filhotes e pela tua própria em qualquer dia.

Uma lágrima caiu dos olhos do homem, que sorria.

Uma outra lágrima caiu dos olhos da grande loba branca, que começava a mostrar seus dentes – não com agressividade, mas com gratidão pelo homem iluminado, que tanto amava o mundo ao seu redor que era incapaz de negar sua própria carne para que aqueles lobinhos brancos vivessem por mais alguns dias.

Tudo o que ouviu foi os dentes da loba tentando acabar com seu sofrimento, com uma gratidão que nunca havia antes presenciado.

“De nada” – pensara o homem em seu último pensamento enquanto vivo. Sacrificava sua própria vida pelo pleno amor à própria vida que não vivia consigo. Os lobinhos brancos e selvagens viveriam por mais um dia.

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