De manhã você já não me amava mais

de manha você ja nao

Ela chegou ao apartamento dele, após um convite desleixado que ele fizera pela internet.

-Está destrancada! – ele disse, ao ouvir seus passos em direção à entrada.

Ela abriu a porta e colocou suas chaves sobre a tigela roxa que ficava próxima à entrada.

-Venha cá! – ele disse então.

Sem dizer nada, ela continuou a dar os seus passos em direção à voz dele. Imaginava o motivo daquele encontro repentino, mas ao chegar na sacada, onde ele desajeitadamente se sentava em uma cadeira de praia e observava os carros passando lá embaixo parou de se perguntar.

-Você está bebendo de novo? – ela perguntou então, acendendo a luz de sua voz naquele bagunçado apartamento de solteiro.

-Apenas uma cerveja! – disse ele, ainda que soubesse que ela estava enxergando a dúzia de garrafas long neck que se escondiam ao lado de sua cadeira.

-Bem… – disse ela, fingindo acreditar – Tudo bem então! Posso me sentar?

Ele sinalizou que ela poderia sentar com a cadeira, mas nem ao menos teve a decência de levantar-se e ajeitar a cadeira de praia para ela.

-Quer uma cerveja? – perguntou ele.

-Por quê não? – ela retrucou.

Apanhou então uma cerveja e entregou a ela.

-Pode abrir pra mim? – ela perguntou então.

Rapidamente, ele abriu a garrafa e lhe devolveu a cerveja.

-Me chamou aqui por algum motivo especial?

 

Os convites para uma visita casual não eram tão incomuns assim. De fato, a cada duas semanas ele ligava para ela ou deixava uma mensagem. Eles se embriagavam, ouviam a alguns discos, assistiam a alguns filmes e transavam. Quando aquilo acabava, ele pedia para que ela fosse embora, pois gostava de dormir sozinho. Ou ao menos era isso que ele dizia. Ela costumava sair do apartamento dele jurando a si mesmo que nunca mais voltaria. O problema é quando o telefone tocava duas semanas depois e ela envolvida por sua própria solidão parava o que quer que estivesse fazendo para correr para os seus braços. Em seus últimos encontros já desgastados, entretanto, ela tinha aprendido a fechar seus sentimentos e tratá-lo do jeito que ele merecia ser tratado: Com a plena indiferença que apenas uma mulher sabia dar.

-Qual a pior coisa que eu já lhe fiz? – ele perguntou então, procurando por um cigarro na carteira vazia.

Ela entregou um cigarro para ele, que agradeceu em silêncio.

-Cacete! Você está brincando? – indagou ela após alguns segundos, deixando transparecer a sua surpresa com aquela pergunta.

-Não. Creio que nunca falei tão sério antes. Não me lembro de ter feito nada para que você me tratasse do jeito que vem me tratando nas últimas vezes. Não me lembro de ter lhe dado motivo algum para que me odiasse tanto.

Ela olhava mesmo para ele com olhos de ódio.

-Quer mesmo que eu lhe diga? – questionou ela então – Você não se lembra mesmo?

-Me diga! – ele insistiu.

-Bem… Vou deixar de lado o fato de você sempre me mandar porta afora quando está satisfeito sexualmente e vou ignorar até mesmo o fato de você nem ao menos ter a decência de pagar pelo meu táxi quando me expulsa daqui às três da manhã. Vou ignorar todo o resto e ir para o grande motivo, certo?

-Por favor! – disse ele.

-Bem… Houve aquela noite em que ficamos juntos… – ela iniciou.

-Sim. A primeira.

-Deveria ser a primeira e a última. – disse ela, com pulso firme – Você se lembra daquela noite?

-Caramba… Eu estava tão bêbado! – exclamou ele, inalando a fumaça do cigarro – Lembro de muitos flashes. Lembro que estávamos nos divertindo. Lembro que você insistiu para que passássemos juntos aquela noite. Lembro de você sorrir o tempo todo. Lembro de ser gentil com você até mesmo quando você falava algumas besteiras.

-Então você não me deu nenhum motivo para que eu lhe desprezasse naquela noite? – perguntou ela.

-Para que você desejasse que fosse a primeira e a última? Definitivamente não, pelo menos que eu me lembre.

-E na manhã seguinte? – ela perguntou.

-Na manhã seguinte tomamos café na cama, fumamos alguns cigarros, conversamos mais um pouco e você decidiu ir embora. Simples assim.

-Bem… Então você realmente não se lembra… – ela disse – Talvez eu devesse simplesmente ir embora.

-NÃO! – disse ele – Fique. Me conte.

Ela respirou profundamente. Pediu para que ele apanhasse mais uma cerveja e acendeu um cigarro. Sentiu o ar preenchendo seus pulmões e procurou escolher as palavras cuidadosamente. De repente, se deu conta de que ele não merecia palavras cuidadosas. Ele merecia a verdade, ainda que não pudesse lidar com ela.

-Tudo bem então. – disse ela – Pela primeira e última vez você foi um cavalheiro comigo naquela noite. E sim, eu morreria para estar na mesma cama que aquele homem maravilhoso que conheci alguns meses atrás. Você foi verdadeiramente encantador. E lhe garanto que o fato de você não ter sido encantador nos meses seguintes não tem nada a ver com o motivo pelo qual eu passei a lhe desprezar.7

-E qual foi?

-Bem, enquanto você estava muito bêbado para dirigir e esperávamos pelo táxi sentados em uma calçada às duas da manhã, você me deu um longo discurso. Me disse que eu era a mulher mais incrível que você já tinha conhecido, me disse que eu lhe entendia como ninguém e me disse ainda que reservava o seu melhor para mim e que era destino que nos encontrássemos naquela noite.

-Bem, e o que há de errado nisso? Não creio que eu tenha mentido pra você! – disse ele – Eu realmente acredito em todas essas coisas.

-Não, não há nada de errado nisso. Há TUDO de errado, entretanto, no que você me disse a seguir, enquanto continuava com seu discursinho.

-E o que eu lhe disse? – perguntou ele, tentando forçar a memória.

-Você disse… Em palavras quase exatas… Que tinha se apaixonado por mim na primeira vez em que me viu. Que se lembrava de mim todas às noites antes de dormir e  em todas as manhãs ao acordar. Me disse que me amou desde o primeiro momento e que aprendeu a me amar à distância. Me disse que eu precisava saber. Você disse “Eu te amo” só pra me levar pra cama. E eu acreditei em você, até a manhã seguinte.

Ele sentia como se tivesse sido esbofeteado no rosto.

-O que aconteceu na manhã seguinte? – perguntou então, envergonhado.

-Enquanto tomávamos café na cama e dividíamos alguns cigarros, comecei a lhe fazer algumas perguntas. Perguntei o que você achou de mim na primeira vez que me viu e você disse que “me achou uma esnobe da alta sociedade”. Perguntei se você costumava se lembrar de mim e você disse “sempre que eu vejo uma foto sua no Facebook”. Te perguntei se gostava mais de mim ou menos de mim quando passavam os dias e você disse que “sempre gostou de mim do mesmo jeito”.

Ele ficou em silêncio.

-Você prostituiu a palavra “amor” e me usou tão somente para que não tivesse que se masturbar quando chegasse em casa e caísse bêbado na cama.

-Sinto muito. – ele disse.

Pararam de falar por um instante.

-Tenho outra pergunta… – disse ele.

Ela apenas o olhou.

-Se passou a ter desprezo por mim naquela manhã, por que continua vindo aqui sempre que eu lhe chamo? Se me despreza agora, por que você não vai embora?

Ela sorriu.

-Pela manhã você não me amava mais. Nada que você possa fazer irá me machucar. Você é uma ótima distração e uma ótima forma de me livrar dos momentos de solidão. Você não é nada mais além disso.

-Mas… E se eu lhe machucar de novo? – perguntou ele então.

-Boa sorte! – disse ela, despindo-se de suas roupas e deixando as velhas cadeiras de praia e ele nas cadeiras e indo para a cama.

Desta vez, o coração dele seria o coração partido.

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