Mergulha-me se for capaz

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Se você não pode se encontrar quando olha nos meus olhos, ainda que aborrecidos, estais realmente perdida. Se você não se encontrar quando mergulha em meus olhos, farei com certeza que eles não sejam um lago aberto. Meus olhos são um rio perigoso, cheio de pedras e correntezas, os quais não permitem à aproximação da civilização. Se queres mergulhar em meus olhos, deve desnudar-se. Desnude-se da mentira, da inverdade, do medo, da arrogância, do orgulho, pois não são tuas roupas que me incomodam – e sim tua relutância em se apegar aquelas velhas coisas as quais nunca te trouxeram nada exceto por uma intolerância para contigo mesma.

Se quiser, entretanto, levar teus brinquedos e irresponsabilidade da infância, devo alertar-lhe que há um grande aviso sobre esse rio e seus pedregulhos. Aquele aviso já estava ali quando tu vistes o rio de meus olhos pela primeira vez, não estava? E fostes avisada sobre seus perigos, por mais vezes do que pudesse contar em seus dedos. Levas, entretanto, teu mergulho de uma maneira desconexa à realidade, desconexa aos teus sentimentos, e, de tal modo, acabas por se esquecer de nadar.

Pula, prometendo que nadará. Não nada. Só “nada”. Promete e pede desculpas, num ciclo mais previsível do que os movimentos do rio violento sobre o qual colocastes teus olhos… Aquele rio irresistível, o qual já lhe salvara do afogamento por inúmeras vezes. Volta à borda do rio, tens mais uma chance. Ainda não se desnuda de tua fúria, pois queres provar algo. Não pra ti mesma, pois já desististe. Nem para os outros, que fingem acreditar que tu é valente. Queres provar ao rio que és mais valente do que ele. Não quer saber sobre os movimentos do rio. Quer que o rio se desculpe com você, ainda que o rio nunca tenha se desculpado antes por seguir o fluxo de suas águas, sua própria essência, sua natureza.

Então foge e vai procurar por um rio mais fácil. Talvez aquele teu próprio rio do qual tu já desistirá há muito tempo. Talvez outro rio. Na verdade está procurando por uma ponte, para atravessá-lo. Não há atalho, entretanto, para o outro lado. Ninguém nunca esteve lá. Quer se comprometer ao rio, esperando que ele construa uma ponte para que você atravesse. O rio deseja que tu mergulhes.  Seria até justo que simplesmente olhastes para o outro lado, caso o rio não tivesse sido colocado na terra pelos próprios deuses para que tu mergulhasses.

Abaixa-se e olha para o rio, que mesmo em água cristalina, não faz que tu vejas teu próprio reflexo. Ao invés de nadar sua alma, nadas teu corpo. E “nada”. Frustra-se por não funcionar, naquele rio que já conhece tantos corpos que já está farto deles. Nega teu coração ao rio que está sedento por ele. Respira, conta até três e dá respostas verissímis a tudo o que já disse na vida. Talvez, por insistência, o rio se acalma e tire as pedras do seu caminho, para que tu possas mergulhar nele de bom grado. Se queres mergulhar sem enfrentar aos rochedos, que mergulhe no ácido composto pelo teu próprio egoísmo. Aquela velha placa de perigo ainda ilustra tua entrada no rio. Olhas para ela de novo, mas não a compreendes.

Mergulha-me se for capaz, como disse que era. Mergulha-me se houver verdade em teu peito. O rio não precisa que cuides dele. O rio precisa que mergulhes nele. Inflastes, com teu ego inflado, pequenas boinhas sobre os seus braços, imaginando que tuas trapaças passariam em vão. Não é em um rio de água doce que tu mergulhas, é em um rio de água salgada, tão raro quanto o respiro único que és capaz de dar quando sua atmosfera é invadida. O rio vai te abraçar, te envolver em suas águas, mas não tão facilmente quanto tu esperas. Nadarás com crocodilos, pois eres tu quem alimentas esses crocodilos.

Se não se sente capaz de me mergulhar, então pare de atirar pedras no rio, esperando que ele as cuspa de volta. Desocupe-o, como tanto ameaças fazê-lo antes da inundação.

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