O homem que dormiu com cem mulheres

o homem que dormiu com cem mulheres

Havia esse homem que um dia encontrara o amor, ainda que soubesse pouco sobre ele ou sobre a própria vida. Logo, ele o perdera – de maneira tão fácil quanto havia o encontrado. Vendo a única mulher que pensava que um dia amaria e a mulher que jurara perante a si mesmo que seria a única que amaria durante toda a vida, o homem deparou-se com um imenso vazio dentro de si.

Dia e noite, aquele homem triste se via olhando para aquele vazio interno enquanto se debruçava sobre uísque, cerveja e cigarros baratos. Dava aquele vazio o nome da amada que um dia perdera, quase como se estivesse tentando se manter próximo a ela mesmo diante da dor. Muito jovem e tendo recém alcançado a maioridade, o homem passou a dar ouvidos aos conselhos de seus amigos sobre o modo de superar aquilo e reencontrar-se com a felicidade. Na época, o homem não se relacionava com nenhuma outra mulher. Tudo com o que ele se relacionava era o imenso vazio que ‘ela’ tinha deixado para trás.

Um de seus amigos que o aconselhava então lhe dissera que o único jeito de esquecer uma mulher era dormir com o maior número de mulheres o possível para que ele pudesse: “Cinco devem ser o suficiente. Talvez dez”. O amigo do homem falava das mulheres como se as enumerasse como gado a ser abatido e aquilo não agradava o homem, mas este desesperado para se livrar do vazio e inexperiente quanto aquela situação, decidiu alcançar os conselhos que ouvira em seu coração sofrido. Segundo o amigo, após cinco ou dez mulheres em sua cama, o homem não se lembraria sequer do rosto da mulher que o abandonara e muito menos de todo aquele vazio que sentira no momento. O homem, ludibriado pela possibilidade de se livrar do vazio e da mulher amada, impôs sobre si mesmo uma meta ainda mais alta: Há quatro anos atrás, prometera a si mesmo que dormiria com cem mulheres. Talvez, assim ele pudesse estar pronto para amar novamente.

Desajeitadamente, o homem apanhou uma folha de papel e escreveu os pouquíssimos nomes das mulheres que haviam dormido com ele até então. Sentiu-se mal, ao escrever os quatro nomes que deveria escrever. Sim, eram apenas quatro, mas o homem havia encontrado algo terrivelmente errado em começar aquela missão. Era como se o mesmo passasse a considerar as mulheres como objetos, uma vez que as colocasse em uma pequena lista. Resolveu, por fim, deixar o nome de sua amada preservado e fora da lista, para evitar que derramasse lágrimas sobre elas.

Mesmo sem colocar o nome de sua amada, o homem nunca se sentiu tão distante dela. Sentia que tinha abdicado definitivamente do amor e que não seria capaz de encontrá-lo novamente: “Talvez depois das cem” – pensava ele, sem saber o que o destino (e os anos seguintes) reservara para ele. Olhava para aquela pequena lista de compras, com uma certa hostilidade para consigo mesmo. Havia se tornado, em questão de poucos dias, um homem que o próprio homem não entendia. Mesmo assim, dedicara-se a acabar com o vazio. Para isso, precisava dormir com cem mulheres.

As primeiras foram as mais difíceis. O homem não estava acostumado com aquilo e não conseguia as ver como objetos. Procurava, em todas elas, semelhanças para com a sua amada. Só conseguia dar um definitivo adeus para qualquer uma delas quando percebia que nenhuma delas poderia ocupar o seu lugar. O vazio, entretanto, desaparecera. Ainda que não conseguisse simplesmente tratá-las como objetos, como o amigo antes sugerira, o homem parecia ser capaz de tratá-las com frieza e ser capaz de se despedir de cada uma delas com uma facilidade através da qual jamais achara que seria possível. O homem viu sua pequena lista aumentando, mês após mês.

Logo, pensou ter esquecido de sua amada. De vez em quando, o fantasma da mesma aparecia em suas paredes e ele se sentia como deveria fazer sentir todas as garotas que colocava em sua lista. Tudo o que ele sentia era saudades de sua amada, ainda que não sentisse o mesmo vazio que sentira um dia. O homem havia se transformado em um novo homem, mas ainda amava a mesma mulher que o antigo homem um dia amara. O homem prosseguiu com seu ritual, tornando-se bastante habituado a ele.

Com o passar dos anos, as despedidas se tornaram rotina. O homem não mentia para as mulheres que levava para a cama. Deixava sempre claro que nunca botaria um anel em seus dedos ou que assumiria qualquer compromisso para com elas. Se surpreendeu novamente com as mulheres: Muitas delas simplesmente topavam tê-lo por uma noite, enquanto outras simplesmente achavam que ele estava mentindo a si mesmo e precisava de algum convencimento.

Os nomes continuaram a ser alimentados na lista. De vez em quando, o homem se apaixonava por alguma delas e passava algum tempo com elas, sempre sem grandes planos ou expectativas. Ele era tão somente o homem que anotava os nomes até alcançar a sua centena e por isso talvez nem mesmo merecesse ser chamado de homem, mas estava curioso para saber que tipo de homem seria quando completasse sua lista. Talvez estivesse mais forte do que nunca, pronto para encontrar o amor.

O homem então chegou muito perto de encabeçar a centena de sua lista, mas não sentia-se mais ansioso com ela. Três anos haviam se passado e todo aquele processo havia deixado o homem aborrecido com a falta de significado das coisas. Mesmo assim, o homem não parecia ser capaz de se apaixonar por mulher alguma, ainda que uma ou outra se apaixonasse pelo homem. O homem se sentia mal por não ser capaz de corresponder o amor de nenhuma delas. Encontrava um certo reconforto, entretanto, quando pensava em sua amada. Como o amigo-conselheiro o prometera, já não se lembrava muito bem dos detalhes sobre ela. Lembrava-se, entretanto, do pior dos fatos que a tornava viva todos os dias: Durante todo aquele tempo, o homem havia amado apenas uma mulher. Se apaixonara e se encantara inúmeras vezes, mas tinha amado somente uma vez.

Assim, o homem resolveu abandonar sua lista e apenas viver sua vida. A lista passou a ser desimportante, mas o homem ainda assim visitava-a vez ou outra, anotando alguns nomes nela. A lista, entretanto, deixara de ser a prioridade do homem. Três anos depois de seu começo, ela parecia alguma piada cósmica feita pelo destino sobre um homem que mal sabia como permanecer com uma única mulher por mais de 10 ou 12 horas. Assim que ele acordava, ele precisava bater em disparada.

Um dia, o homem se apaixonou novamente. A lista ainda existia, mas por algum motivo o homem decidira não colocar o nome daquela mulher nela. O homem só colocava o nome de uma mulher em sua lista depois que ela se ia. O homem, entretanto, não queria que aquela mulher fosse embora. Não queria, de forma alguma, que ela se tornasse mais um nome de sua lista. Sentia-se, sobretudo, bem. Logo, a paixão se tornara amor e a lista se tornara uma coisa distante.

Havia esse homem que havia encontrado o amor pela segunda vez.

Todavia, o que ele encontrou não foi nenhum conto de fadas. O homem havia escrito e pensado sobre o amor com frequência nos últimos anos, mas ele sabia mais sobre a sua nefasta lista do que sobre o próprio amor. O homem passou a sentir aquele vazio novamente, sempre que brigava com sua ‘nova’ amada. O homem, após tantos anos, havia se encontrado enfrentando aquilo que não pudera enfrentar durante todos aqueles anos: O amor.

Um ano se passou e de algum jeito o homem continuava vivendo a história de amor a qual se comprometera. Por vezes, o homem e sua amada não se viam mais e o homem imediatamente começava a trabalhar em sua lista, como se aquilo fosse resolver alguma coisa. Um dia, o homem, vendo-se devastado e irreconhecível diante do amor, viu sua amada ir embora. Foi a segunda vez. O homem sentiu-se mal, pois tanto fizera pelo amor, arrastando a si mesmo na lama por incontáveis vezes. Decidira, entretanto, que não poderia amar por dois.

Assim, o homem apanhou a lista de novo, mas mesmo assim não colocou o nome de nenhuma de suas amadas. Pensou em colocá-las lá, pois ainda que fingisse, não poderia negar que todas as outras mulheres tinham sido importantes em sua vida. Toda e qualquer uma delas tinha algo de especial, como se contassem um pequeno segredo que durasse apenas uma noite.

Sentiu-se tolo ao colocar mais alguns nomes na lista, dentre as suas escapadas quando sua amada o abandonara e dentre suas escapadas quando abandonara sua amada. Foi então que o homem percebeu: “Eu estou perto”.

Faltavam apenas seis nomes.

O homem, com uma agilidade que nunca vira antes, se viu encontrar cinco nomes e escrevê-los em sua lista, faltando apenas uma para que completasse sua centena. Sentia-se tolo, quase infantil, embora tudo o que aquela lista representasse fosse a sua incapacidade em lidar com o amor e de preencher um vazio deixado por suas amadas: “Talvez, se eu abandonar cem e ter sido abandonado por apenas duas, isso não doa tanto assim”.

Logo, o homem teve a sua última noite da lista. Encontrou essa garota que tinha uma queda por ele há meses em um bar. Beberam algumas cervejas e logo resolveram ir para a casa da garota. Assim como sempre fizera, o homem deixou claro que não queria nada com aquela garota que não fosse aquela única noite. A garota, tão coração partido quanto ele, concordara.

No outro dia, o homem visitou sua lista pela última vez e escreveu o nome da garota após o número 100.

Perguntou-se a si mesmo então o que sentia.

“Nada”.

Sentiu um vazio tão grande e absoluto quanto o vazio que sentira ao perder suas amadas. Percebeu então que todos aqueles nomes na lista não eram objetos e sim um capricho (ou uma travessura) grosseiramente realizada pelo próprio homem. Não sentiu-se mal por completar a lista e nem enojado pela quantidade de nomes que a habitavam. O que fez o homem sentir uma coceira que ele não conseguia coçar era o fato de que cada um daqueles números tinha um nome.

Passou pelo número um, pelo número cinco, pelo número dezoito, pelo número vinte e cinco, pelo número trinta e sete e assim por diante. Não bastava que elas tivessem um nome, elas tinham um rosto. De forma alguma, poderia considerá-las um objeto. De forma alguma, poderia considerá-las o processo terapêutico sugerido por um amigo há quatro anos atrás. Completara a sua centena, mas perdera aquilo que lhe importava. A pequena lista de sucessos havia se tornado uma interminável lista de fracassos. O homem pensava que tinha dispensado todas aquelas cem mulheres, mas na verdade quem as dispensara tinham sido elas.

O homem resolveu então olhar para algum lugar que refletisse melhor tudo aquilo que se tornara. Foi até o espelho, após terminar a sua cerveja. Olhou a si mesmo nos olhos e decidiu que aquele homem não deveria existir mais. Até mesmo que ele não poderia existir, após o fim da lista, que havia se tornado tão desinteressante quanto o olhar que o próprio homem alçava sobre seu reflexo no espelho.

Não havia nenhum pingo de orgulho no homem, ao se ver sepultado diante de seu reflexo no espelho. O homem que fugira tanto de seus sentimentos e que fizera coisas horríveis em um curto período de tempo para alcançar um objetivo infantil não fugia mais. Ele sequer existia. O homem então repetiu para si mesmo: “Tenha sido por uma noite ou por um ano, eu amei de alguma forma cada uma delas” – desejara, entretanto, não ter escrito o nome de nenhuma delas.

Após um longo banho e outra longa reflexão sobre si mesmo, o homem caminhou lentamente ao seu quarto, com a toalha enrolada em seu quadril e apanhou a lista novamente. Descobriu o que ela significava: Absolutamente nada. Logo, incendiou-a com o mesmo isqueiro com o qual acendera seu cigarro e simplesmente ficou ali. Acordaria amanhã, mas nada lhe afastaria da verdade: Quatro anos depois, não se tornara um homem que conquistara todas as mulheres, se tornara um homem que tão somente as perdera.

PS: Esse é o relato de uma história real. E ela NÃÃÃÃO aconteceu com o autor que vos escreve. Perdoem quaisquer erros de português pela pressa na redação 🙂

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