Dos azares e da maldição de ‘não ser como eles são’

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Bem… O que eu posso dizer foi que eu nunca tentei ser diferente, simplesmente aconteceu. Eu não sei se eu nasci do jeito errado, no mundo ou na época errada. Não sei se quem está virado de cabeça para baixo sou eu ou o mundo e, francamente, não poderia me importar menos com isso. Mas sempre havia essa coisa diferente em mim, sabe? Como se eu pensasse diferente, sentisse diferente, agisse diferente. Aos quinze anos, eu já tinha vivido três ou quatro vidas. E eu olhava para os meus colegas, enquanto me distanciava deles. Eles estavam ansiosos para ter um emprego, tirar a habilitação e comprar um carro. Eu almejava tão somente viver a vida real.

Sim, eu queria aquilo do qual todo mundo desejava fugir. Aquela realidade que nos encaçapa em um buraco. Aquela realidade que nos faz perder a cabeça e às vezes até os dentes. Eu via as pessoas ao meu redor. Eu não conseguia confiar no jeito que elas viviam, nunca quis aquilo pra mim. Alguns tiveram filhos, outros casaram, outros arrumaram dívidas bancárias do tamanho da Bíblia. Alguns foram para uma religião, outros para outra. Eu não via o caminho deles como errado. De errado, tudo o que eu poderia ver seria que eu os seguisse rumo ao previsível e confortável.

Eu tentei.

Eu tentei me vestir como eles se vestem. Tentei ir aos seus empregos. Tentei fazer a mesma faculdade (todas as faculdades, no fim das contas, são iguais). Eu tentei me preparar para o futuro. Eu pensei em aposentadoria. Eu pensei em comprar um carro, ainda que aos 23 anos já tenha me desfeito não só dessa ideia, mas também da ideia de conseguir uma habilitação. Pensei até mesmo em enfiar os pés pelas mãos e assumir uma dívida bancária do tamanho de uma Bíblia. Sim, eu pensei em todas essas coisas. Algumas delas eu fiz, outras não, mas sempre que eu estivera as fazendo algo dentro de mim me dizia: “Puta que pariu, tens ideia do quão estúpido você está sendo agora?”.

Não, eu não sou como eles, ainda que tente ser. Não falo aqui dos meus colegas da escola, os quais não sei por onde andam. Falo das pessoas em geral, de seus apegos, de sua loucura. Todas as pessoas que são loucas pensam ser sãs, ao menos pela minha experiência. Eu, vivendo de um jeito diferente, sempre questionei minha sanidade. Talvez isso me faça de algum modo insano o mais são dentre eles.

Você vê? Eu estive nos bares em todos os cantos desse país, eu estive com mulheres e eu sempre me virei para arranjar algum dinheiro. Tinha me tornado uma espécie de andarilho, mas eu nem ao menos preciso mais trocar de cidade para viver outra vida. Bastam-me algumas cervejas. Não tento dosas às mudanças como tento dosar minhas bebidas, meus cigarros e até mesmo minha convivência com as pessoas. Talvez eu vire um velho rabugento e talvez eu morra sozinho, mas como é que sempre dizem? “Todas as criaturas desse mundo nascem e morrem sozinhas”, não é mesmo?

Mas não.

Eu não estou disposto a me perder de mim mesmo.

Eu não estou disposto a ser como eles. Mexo minhas mãos diferente do jeito que eles mexem suas mãos. Gosto do meu café diferente. Céus! Eu até olho para os céus de um jeito diferente. Não faço registro de nada que seja realmente importante, apenas aprecio. Vou seguindo, de um jeito diferente de todos eles.

Talvez, por tanto pensar ser diferente deles, aconteça uma tragédia: Torno-me eu um deles.

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