“Hospício Lotado – Favor não insistir”

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O homem acorda de um sono profundo e vai cambaleando até o banheiro. Olha-se no espelho mal iluminado e ainda assim pode ver suas rugas. Sim, ele tinha chegado aos 50, embora parecesse ter chegado aos 60 ou até aos 70. De fato, sua cabeça tinha parado de funcionar aos 30 e ele ainda achava que tinha 20, mas o tempo não o tinha perdoado.

-Bem, acho que eu sou verdadeiramente louco.

Certo dia, o homem tinha ouvido uma história de um cara que tinha sido muito rico e após perder tudo este internou-se em um hospício. O homem achava aquela uma decisão discutível, já que o cara poderia muito bem recuperar sua fortuna de algum modo, visto que ele conhecia os segredos que os outros homens desconheciam. Mesmo assim, o cara rico que perdeu tudo internou-se no hospício. Quando o homem ouviu aquela história ele pensou: “Essa realmente deve ser a última alternativa de cada um que vive nessa terra, juntamente ao suicídio e ao alcoolismo”.

O homem já tinha tentado o suicídio e falhado por quatro vezes em seus 50 anos de vida. Fazia pelo menos quinze que ele não sabia o que era estar sóbrio ou acordar em uma bela manhã sem ressaca. Não ouvia mais o canto dos pássaros, só ouvia suas costas e joelhos estalando. Via-se como um punhado de sacos velhos, como um cão que é abandonado pelos donos.

Naquele dia, o homem foi até o hospício.

-Vocês aceitam qualquer um? – perguntou o homem.

-Sim, nós não podemos negar a recepção de ninguém. – respondeu a senhora que o atendeu.

-Tudo bem, vou resolver umas coisas e já volto.

O homem foi até a esquina e tomou três doses de cachaça. Acendeu um cigarro. Sequer tinha feito suas malas. Passaram-se alguns minutos e o homem foi cambaleando de volta ao hospício. Procurou pela senhora que o tinha atendido. Ela não estava lá. Foi atendido por outra senhora.

-Pois não? – perguntou a senhora.

-Gostaria de me internar. – disse o homem.

-Desculpe, estamos lotados.

-Lotados?

-Sim, não há vagas.

-Mas a outra senhora disse que…

-Por favor não insista, senhor! – disse a mulher.

Ele deu meia volta e voltou para a rua. Olhou para um pequeno aviso desleixado que havia sido recém-colado na porta: “Estamos lotados. Favor não insistir”. Sabia que aquele aviso tinha sido colocado ali só para ele.

Não insistiu.

Voltou ao bar da esquina e virou mais dois copos de cachaça. Correu até o sujo banheiro e desistiu de lavar o rosto ao se deparar com aquela água amarela que saia da pia.

-Bem. Essa é nova! – disse o homem.

Olhou para frente. Viu um aviso recém-colado que dizia: “Proibido lavar o rosto. Favor não insistir”.

De fato, era um mundo estranho e hostil.

Saiu do banheiro. O bar da esquina tinha se esvaziado completamente.

Olhou para o balcão e viu um aviso recém-colado: “Acabaram-se todas as bebidas. Favor não insistir”.

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