Você parece algo que desenhei

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Quando bem jovem, eu gostava de desenhar, ainda que não desenhasse muito bem. Rabiscava em todo o canto, experimentando a minha ‘arte’. Ainda que eu não obtivesse sucesso, estimava e valorizava meus rabiscos, com a inocência de uma criança que venerava a capacidade de criar qualquer coisa.

O problema é que você não consegue explicar o valor daquilo que aparentemente não tem valor para quem não o conhece.

EU: Você parece uma Maria Palito.

ELA: Que horror.

EU: Não é isso! Você parece as coisas que eu desenhava quando era criança… Uma círculo não-circular no céu… Esse é o sol. Você parece com o sol que eu desenhava quando era pequeno!

ELA: Ham?

EU: E também parece com as nuvens que eu desenhava… Eu gostava de desenhar as nuvens, porque não precisava pintá-las. Nunca gostei de pintar.

ELA: ?

A questão sobre essa dinâmica se dá na incapacidade que temos de explicar aquilo que tem algum tipo de valor para nós. Não podemos nos expressar ou manifestar de acordo com aquilo que aprendemos a venerar. Devemos adentrar em dois mundos para que os nossos desenhos possam sair das páginas antigas. Não devemos mostrar nossos rascunhos, nem nossos rabiscos. Não conseguimos explicá-los, da mesma forma que não conseguimos explicar o amor.

NOTA: O diálogo acima (eu/ela) foi baseado na obra “A Arara Bêbada”, de Dalton Trevisan.

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Um comentário sobre “Você parece algo que desenhei

  1. Gosto da forma que conduz seus textos,ao menos, de todos que li até agora. Sua visão do que existe, ou do que é, digamos assim, também é muito interessante. Enfim, o que quero dizer é que me interessei pelo seu trabalho. Felicidades.

ComentAnderson

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