Da inveja dos pássaros

Todos os barulhos da cidade cessaram enquanto observei o pequeno passarinho. Normalmente, os pássaros não se aproximam muito da gente, não é? Pelo contrário: assustados costumam fugir e nós não podemos culpá-los por isso. O pássaro se aconchegou do meu lado. Pensei em tocá-lo, mas isso provavelmente o afugentaria e faria com que ele voasse para muito longe, onde eu não poderia encontrá-lo.

Decidi então apenas observar o pequeno pássaro. Estava longe de ser um dos mais belos que tinha visto: estava coberto por penas pretas e não tinha nada de realmente especial. Ficava ali parado, como se eu fosse seu guardião e zelasse por ele. Simplesmente fiquei por ali o observando, pelos seis ou sete minutos que ele ficou do meu lado enquanto eu sentava no gramado do parque.

Logo, ele voou para longe.

Nunca pensei que sentiria inveja dos pássaros, mas naquele momento eu tive que admitir isso para mim mesmo. Eu logo precisava me levantar e ir pra casa, ainda que não tivesse que trabalhar. Não poderia ir para bem onde entendesse. Ir para os lugares custa caro. E o que eu diria para minha namorada?

Não, ir para longe não era uma opção para mim, mas era para o pássaro. Ele era livre para voar para onde bem entendesse sem precisar dar satisfações para ninguém e sem se preocupar com dinheiro. A única preocupação do pássaro no mundo era em seguir sua natureza: comer e se reproduzir, nada além disso.

E aí ele se foi, não se sabe para onde. Gosto de fantasiar que ele foi para algum lugar que eu desejava visitar. Talvez ido para o Japão ou para as Ilhas Fiji. Ele poderia dar uma espiada na ilha Sentinela do Norte, se assim desejasse. Mas ele provavelmente apenas iria dar uma volta pela cidade e talvez parar no seu ninho que ficava naquele mesmo parque. Talvez tivesse filhotes para alimentar, embora abandoná-los fosse uma opção.

De qualquer forma, não criei asas. Apenas fiquei ali sonhando com o pássaro, morrendo de inveja dele. O barulho da cidade voltou e passei a sentir calor. Era hora de ir pra casa.

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