Dos meus personagens mortos, das pandemias e de todo o resto

Eu não conseguia mais escrever e era simples assim. Eu tinha me cansado dos textos e dos contos e queria escrever livros. Eu já tinha um livro pronto e umas três dezenas de livros inacabados. Não era possível retomar o trabalho um dia iniciado: todos os personagens que eu tinha criado estavam mortos, ainda que eu não os tivesse matado em suas respectivas histórias. Eles tinham morrido dentro de mim, sem que eu percebesse.

Vida desperdiçadas! Todos aqueles personagens foram cuidadosamente elaborados, quase como se eu os tivesse esculpido a mão. Eles fizeram algumas coisas enquanto eu passeava pela página em branco, mas nunca cumpriram o seu real propósito. Alguns, eu já tinha para mim quais seriam seus destinos finais. Outros, esperava para me surpreender. De qualquer forma, foram vida desperdiçadas. Quando você desperdiça a vida de todos os seus personagens, ainda que não se dê conta disso, você não está desperdiçando também a sua própria vida?

Talvez eu seja um personagem de alguém também e talvez eu também tenha morrido ou simplesmente desperdiçado boa parte da vida sem querer. No momento em que escrevo essas palavras, estou aos 27, quase chegando nos 28, em novembro. E eu não acho que beber, fumar ou correr atrás de sexo sejam necessariamente desperdícios de tempo. Mas, mesmo assim, eu poderia ter aproveitado o tempo que me foi dado um pouquinho melhor.

Talvez não seja realmente uma questão de aproveitar o tempo, mas de aproveitar o talento que eu julgo ter. Alguns anos atrás, eu bebia e escrevia por horas. Eu era inquieto, cheio de questões e cansado das pessoas e de seus hábitos irritantes. E eu ainda sou assim. E eu achava que eu tinha algo para dizer… e ainda tenho. Então por qual motivo eu não continuo a escrever enquanto bebo? Por qual motivo eu fico apenas odiando o mundo e não tento nem ao menos criar algo que amenize a frustração.

De qualquer forma eu não estou bêbado hoje, o que é uma verdadeira novidade. Há alguns anos atrás, quando eu tinha por volta de 21 anos, desenvolvi um hábito onde comecei a beber todos os dias. Esse hábito me acompanhou até os 27 anos e faz pouco mais de um mês que eu o abandonei. Eu ainda bebo religiosamente às sextas, sábados e domingos (e as sobras da cerveja na segunda-feira), mas eu descobri que eu não poderia continuar com isso para sempre. Há alguns anos atrás, eu não me importava com o jeito que iria morrer, mas agora me importo. Não quero morrer como os personagens que morreram dentro de mim e de meu trabalho, por mero descuido.

Eu também arranjei uma gata. Não apenas uma, mas DUAS GATAS. A primeira veio, contra a minha vontade. A segunda, procurei para fazer companhia para a primeira. Se eu deixar de lhes alimentar, se eu me esquecer delas, elas morrerão. Foi o que aconteceu com meus personagens: os deixei trancados em páginas escritas às pressas, sem comida e sem qualquer amparo. E, se eu deixar de me cuidar e me esquecer de mim, aos 27 anos, possivelmente terei o mesmo destino. A solução talvez fosse criar novos personagens e cuidar deles como cuido das minhas gatas.
Sabe qual é a pior parte? Eu nem ao menos me lembro da maior parte deles. Lembro-me de seus nomes, de suas ocupações e de uma ou outra história sobre eles. Mas eu não me lembro de como eles me faziam sentir. É como se lembrar de uma ex-namorada antiga. Você lembra que sentia algo por ela, mas não se lembra exatamente como era. Aos poucos, você vai esquecendo dos cheiros, das manias… e logo ela está morta também. É o destino de todos, não é? Morrer dentro da gente, meio sem querer. E enquanto eu desisto de algumas coisas para tentar me ocupar com outras e mudar meu destino, me pego pensando nos malditos personagens mortos.

Eu não deixo minha casa há mais de três meses, mas não se preocupe, pois eu não estou com depressão, síndrome do pânico, nem nada do tipo. Há um vírus circulando lá fora e, mesmo que ele fosse inofensivo para mim, tenho sido um dos que adotaram a quarentena. Você sabe quantas pessoas do meu próprio país morreram no momento em que escrevo essas palavras? Quase 47 mil. Ontem eram 45 mil. 900.000 infectados, uma tragédia. E eu sou uma das poucas pessoas que permanece em casa em uma amostragem muito grande. Lutar para a vida é para uma minoria, sobretudo quando a luta pela vida é algo ‘chato e monótono’.

47 mil pessoas.
Meus personagens.
Eu mesmo.
Os que ficaram em casa.
Os que saíram também.
Não sairemos dessa coisa louca chamada vida por inteiros.

 

Mas sim, eu voltei a escrever, por ora.

Creio que já é alguma coisa.

ComentAnderson

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