O encontro da Gasolina com o Fogo – Parte II

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ATENÇÃO: O CONTEÚDO EXPOSTO AQUI NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS, PESSOAS SENSÍVEIS OU IMPRESSIONÁVEIS. Se você ainda não leu a parte I de “O Encontro da Gasolina com o Fogo” clique aqui.

Michael vestiu a samba-canção e desceu para fazer o café e lavar o corte que tinha recebido em sua testa. Sempre se sentira atraído por mulheres loucas, mas Sofia fazia até mesmo a pior de suas ex-namoradas parecer uma anjinha. E ele não costumava ser golpeado pelas mulheres sem que pedisse para que elas o fizessem. E não daquele jeito…. NUNCA daquele jeito.

Com o café feito, ele apanhou algumas torradas e subiu pelas escadas temendo o que ainda estava por vir. Novamente encontrou Sofia de cara lavada, sorrindo enquanto encarava a TV. Ela o chamou:

-Olha só… Esse cara vai morrer, eu sei que vai!

Michael não identificou que programa ela estava assistindo, mas parecia ser alguma série policial ruim dos anos 80. Normalmente ele deitaria ao seu lado, faria alguma piadinha sem graça e passariam a noite de mãos dadas e com beijinhos no rosto. Não naquela noite. Talvez a pancada na cabeça a tivesse dado coragem.

-Fiz o café! – ele disse.

Ouviu um tiro saído da TV.

-Não falei? Sabia que esse cara ia morrer. Quem é que escreve essas coisas? – ela indagou com uma gargalhada.

-Fiz o café! – ele repetiu.

-Eu ouvi o que você disse. Agora olha só… Esse outro cara, de vermelho – disse, apontando para a TV – vai morrer também. Está na cara…

-CHEGA!

Nos três anos que estiveram juntos Michael nunca tinha gritado com ela. Foi o suficiente para que ela pegasse o abajur em suas mãos novamente e o apontasse para ele. Sofia tinha prometido para si mesma há muito tempo que jamais deixaria um homem gritar com ela novamente… Não depois do que aconteceu na última vez que deixou.

Michael se recompôs.

-Ahh… Me desculpe. Mil perdões. Não foi minha intenção! É só que… Você… Você… Será que pode colocar o abajur de lado e simplesmente conversar comigo?

Com um pouco de receio, colocou o abajur de lado. Não tinha motivos para acreditar que Michael pudesse ser agressivo ou violento com ela, mas já tinha sido surpreendida outras vezes. Mesmo assim, estava de mãos livres e ele se aproximava.

Sofia entregou suas mãos para Michael e ele as segurou.

-Tudo bem… Eu lhe conto.

Michael ficou perplexo. Ela ficou olhando para o teto por alguns segundos e ele pensou que ela provavelmente estava pensando em algum jeito de escapar dali ou de não contar aquela história. Se perguntava se a história que ela escondia tinha algo haver com as saídas diárias dela da casa entre 18 e 19 horas.

-Bem… O que eu vou lhe contar agora aconteceu há algum tempo atrás… – ela começou.

-Por favor, não seja vaga. – ele suplicou – Quanto tempo?

-Nove anos, vinte e três dias e… – olhou para o relógio – Cerca de dezessete horas e dezoito minutos.

O que quer que tivesse se passado com ela, vivia dentro dela todos os dias. Michael preferiu se silenciar enquanto ela contava a história. Ela pediu que ele lhe entregasse um cigarro e ele se surpreendeu. Ela havia parado quando eles estavam saindo há dois meses e nunca mais tinha a visto com um cigarro na boca. Improvisaram um cinzeiro em uma garrafa vazia de corona que Michael havia encontrado na cozinha, acenderam seus respectivos cigarros e lançaram olhares profundos um em direção a alma do outro, como se estivessem prestes a compartilhar um segredo. De fato, eles estavam.

Sofia tinha 24 anos e Michael tinha 32, o que fazia com que na época dos acontecimentos que ela viria narrar em seguida ela estava com apenas 15 anos. Michael sequer respirava enquanto sentia as mãos de sua amada trêmulas e observava seu rosto se contorcer em busca de um começo para a história que contaria a seguir.

Finalmente, ela havia de algum jeito encontrado uma maneira de começar.

Michael conhecia o pai de Sofia. Era um cara duro e extremamente religioso e diziam as más línguas que era bastante agressivo há alguns anos. Ela descrevia o relacionamento com o pai, as surras que levava sem motivo algum e a forma como ele a aprisionava em seu quarto por horas, privada de comida ou de qualquer distração.

-Ah meu Deus, ele… – indagou Michael, não tendo coragem de pronunciar as palavras.

-Me estuprou? Não, não… Meu pai sempre foi um completo babaca. Achava que a violência era uma espécie de lição com a qual todos deveriam aprender… Em especial eu, minha mãe e minhas duas irmãs… Ele nos agredia com mais frequência do que falava, mas ele nunca tocou em nenhuma de nós desse jeito.

Por causa disso, Sofia não falava com o pai. Michael só o conhecera uma vez há dois anos quando ele simplesmente apareceu para lhe deixar um presente de natal (que foi jogado ao lixo sem nunca ser aberto). O pai de Sofia e Michael não se deram muito bem. Se ele a tivesse tocado…

Ela continuou a narrar o relacionamento com o pai. Antigamente ele era um beberrão de primeira categoria e achava que o mundo todo era seu inimigo. Céus, ele achava até mesmo que sua própria família o impedia de ser aquilo que ele queria ser. Acabou passando toda a vida no mesmo emprego de eletricista até que se aposentou. Quando Sofia tinha 12 anos, os pais se separaram e ela passou a morar com a mãe, que nunca prestou queixas contra seu pai ou voltou a falar com ele novamente. Ele foi privado de sua família, as únicas pessoas que lhe davam algum tipo de autoridade. O velho ficou em choque e acabou parando de beber e tentou levar a vida da maneira mais leve que era capaz na medida de suas próprias limitações.

Nesse período, a mãe de Sofia teve que trabalhar para sustentar as três filhas e acabava as deixando na casa de amigas. As duas mais novas ficavam com a avó, mas Sofia a detestava. Com 12 anos ela já tinha um “corpo de mulher” como diziam e a avó vivia querendo ditar regras acerca do que ela deveria fazer… Com seu corpo, com seu emprego, com sua vida. Era uma velha rabugenta, mas logo Sofia aprenderia que o mundo oferecia perigos muito piores do que a chatice de sua avó.

Ela convenceu a mãe a deixa-la na casa de sua amiga todas as tardes. Sofia tinha uma amiga chamada Cecilia que morava com o pai, uma cara pelo qual todos da cidade tinham apreço. Ele fazia um frequente trabalho voluntário na igreja e estava envolvido em inúmeras causas sociais, além de ser professor de teologia em uma das universidades da cidade. Diziam que seus debates incendiavam as classes e que ele tinha feito quatro de seus alunos ateus se converterem ao catolicismo. Em suma: Daniel Morgan era o cidadão acima de qualquer suspeita. Se havia alguém em que todos da cidade confiavam e alguém em que todos poderiam confiar, aquele era o homem. Sempre prestativo aos vizinhos e à comunidade em geral. Morgan era o típico cara que tirava gatinhos de cima de uma árvore e ajudava velhinhas a atravessar a rua com um sorriso no rosto. Nunca pedia nada em troca e quando alguém perguntava porque ele sempre estava com um sorriso no rosto ele dizia:

-Bem… Deus está sempre sorrindo… E não fomos feitos à Sua imagem e semelhança?

Michael encarava Sofia enquanto ela desviava o olhar e continuava com a história. Estava estranhamente serena e falava calma e pausadamente, com um incrível apreço pelos detalhes da história.

Ela continuou.

A questão é que quando ela fez 13 anos continuava frequentando a casa da família Morgan. De vez em quando, Daniel colocava a filha Cecília de castigo por notas baixas na escola ou qualquer travessura que a mesma tivesse contado, porém sempre era gentil e atencioso com ela. Daniel Morgan mostrava um grande desprezo pelo pai de Sofia depois que os boatos sobre a violência tinham se espalhado pela cidade. Sofia passou a gostar mais da companhia de Daniel do que da de Cecília. Via nele a figura paterna que não vira em seu próprio pai.

Em um dia enquanto eles conversavam sobre um projeto científico que Sofia tinha que fazer para a escola ele passou as mãos na perna dela. Ela estranhou aquela atitude e nunca a esqueceu, mas não deu muita importância aquilo. Daniel Morgan era de fato uma das melhores pessoas que ela já tinha conhecido e jamais faria nada para machuca-la.

Foi o que ela pensou.

Cecília passou a ficar cada vez mais de castigo, embora suas notas na escola tivessem melhorado bastante e seu comportamento estivesse melhor até mesmo que o de Sofia, que gostava de aprontar uma ou outra de vez em quando. Quando ela contava suas histórias para Daniel, ele parecia se divertir bastante a ouvindo. Frequentemente a tocava no rosto ou passava a mão em seus cabelos, mas não passava disso. Ela via aquilo como um sinal de afeto e em nenhum momento pensou que poderia haver mal no coração puro de Morgan.

A esposa de Morgan havia falecido ao dar à luz Cecília e ele frequentemente chorava na frente de Sofia. Eles começaram a ter uma espécie de conexão e conversavam com uma frequência cada vez maior.

Certo dia, Sofia fazia seus deveres de matemática quando Morgan se aproximou, oferecendo ajuda. Ela recusou, pois realmente gostava de matemática. Era sua matéria predileta na escola. Morgan então ofereceu uma massagem a ela, mas ela também recusou. Rejeitado, ele sorriu e voltou algum tempo depois com limonada e biscoitos.

-Cecília também vai ganhar? – perguntou.

-Não. Ela tem se comportado muito mal. – respondeu o Sr. Morgan.

-O que ela fez? – perguntou então Sofia.

-Prefiro não lhe contar. Cecília é uma menina travessa e tem muitos segredos. Ela vai ficar alguns dias de castigo, mas logo vão voltar a passar suas tardes juntas. Não consigo ficar bravo com ela por muito tempo.

Sofia estranhava algumas coisas, mas confiava plenamente no Sr. Morgan. Ele nunca tinha feito nada que não lhe agradasse ou sido grosseiro com ela, ao contrário do pai. Via no Sr. Morgan uma figura paterna incontestável e achava que se Cecília estava sempre de castigo havia um bom motivo para isso, embora ela jurasse que seu pai a colocava de castigo sem motivo.

O Sr. Morgan sentou-se no sofá e observou Sofia fazendo suas tarefas de matemática enquanto comia os biscoitos e provava a limonada. Ela via o Sr. Morgan se tocando no sofá, mas não sabia o que aquilo significava. Seus pais eram bastante religiosos e sexo era algo desconhecido tanto para ela quanto para suas irmãs. A escola era ministrada por uma fundação católica extrema e a sexualidade também não era um tópico muito comum. Só ouvia falar de sexo nas aulas de biologia, mas não havia entendido muita coisa. Preferia não fazer muitas perguntas e sequer imaginava que o que o Sr. Morgan fazia no sofá poderia ter algo a ver com sexo – ou mesmo, algo a ver com ela.

Michael não falava nada. Estava envolvido com aquela história, perguntando o que aconteceria a seguir. Temia por Sofia, mesmo que nove anos tivessem se passado.

Então no dia seguinte o Sr. Morgan pediu para que ela se sentasse ao lado dele enquanto os dois assistiam a um filme. Ele tinha levado cobertores para a sala e uma série de guloseimas. Sofia tinha um grande fraco para doces e o Sr. Morgan realmente parecia querer tão somente o seu bem. Ele se cobriu ao lado dela e ela se cobriu com a mesma coberta.

-Você gosta de mim? – perguntou o Sr. Morgan.

-Gosto. – ela afirmou, estranhando aquele comportamento. Aquele não era o tipo de pergunta que o Sr. Morgan costumava fazer.

-Então diga pra mim.

-Dizer?

-É, diga.

-Gosto do senhor, Sr. Morgan.

-Pode me chamar de Daniel. – disse o Sr. Morgan, ostentando um sorriso no rosto.

-Gosto do senhor, Daniel.

-Você, por favor. – ele disse.

-Gosto de você.

-Eu também gosto muito de você. – disse o Sr. Morgan.

Passou a apalpá-la nas coxas e seios por debaixo das cobertas. Sofia era uma garota extremamente inocente e não fazia a menor ideia do que aquilo significava, mas o Sr. Morgan parecia feliz com aquilo então – mesmo incomodada – ela não protestou. Em nenhum momento o Sr. Morgan tinha sido agressivo e fizera tudo aquilo com a “concessão” que o silêncio de Sofia proporcionava. Aquilo a deixava um pouco perturbada, mas realmente gostava do Sr. Morgan e ele não parecia fazer por mal.

Sofia ainda não havia conhecido o lado ruim do Sr. Morgan.

No outro dia, Cecília esteve com ela na sala e o Sr. Morgan não apareceu.

-Meu pai me disse que não vai mais me deixar de castigo. Disse que você o convenceu. O que você fez? – perguntou Cecília.

-Nada demais. – respondeu Sofia, sem ter certeza do que ela havia feito ou do que havia feito o Sr. Morgan em sua companhia.

O Sr. Morgan não conversou com Sofia por duas ou três semanas, até que deu um “oi” ao encontra-la na cozinha. Ela se sentia culpada, como se tivesse feito algo para afastar um homem que representava o mais próximo de um pai que tivera.

Com o tempo, voltaram a se falar. O Sr. Morgan nunca mais havia tentado fazer nada na companhia dela e continuou a tratar Sofia melhor do que tratava Cecília. Dois anos depois, Cecília e Sofia continuavam sendo melhores amigas e já entendiam uma coisa ou outra sobre sexo. Cecília foi a primeira a fazer sexo em toda a classe. Sofia não tinha interesse, mas se perguntava se o Sr. Morgan tivera alguma intenção de fazer sexo com ela dois anos antes. Nunca disse nada a ninguém, pois realmente o respeitava. Além do mais, o Sr. Morgan jamais faria algum mal para alguém. Era o que todos diziam na cidade e se todos diziam deveria ser verdade.

Quando o Sr. Morgan descobriu que Cecília deixava de ir para a escola para se encontrar com um garoto mais velho ficou furioso. Ela passou a usar roupas longas para esconder os ferimentos provocados pela cinta do pai e só falava com Sofia sobre as agressões. Sofia pensava que se o Sr. Morgan batia em Cecília ele tinha um bom motivo. O Sr. Morgan era um bom homem. Era o que repetiam os ecos por toda a cidade e se todos acreditavam nisso, deveria ser verdade.

Cecília e Sofia passaram a se falar somente na escola. Assim que chegava em casa, Cecília se trancava no quarto antes que o pai a mandasse para lá. Sua expressão fechava quando ela chegava em casa, mas Sofia sabia que aquilo logo passaria. Nos últimos dois anos, o Sr. Morgan praticamente não havia deixado Cecília de castigo. Confiava nos motivos do Sr. Morgan.

E como Cecília vivia trancada no quarto e Sofia era proibida de ir lá, ela e o Sr. Morgan voltaram a conversar. Ela tinha vontade de perguntar ao Sr. Morgan o que havia acontecido naquela vez em que ele a tocara, mas tinha medo de deixa-lo decepcionado. Então, simplesmente conversavam sobre a escola, sobre Cecília e sobre a família de Sofia. Sofia chegou até a pensar que havia imaginado toda aquela cena embaixo dos cobertores. Talvez tivesse sonhado ou seu cérebro estivesse lhe pregando peças. O que sabia é que o Sr. Morgan era um bom homem. Era o que todos diziam…

Mas todos estavam errados. Foi o que ela descobriu em uma tarde de quinta-feira.

O Sr. Morgan sempre se sentava com Sofia no sofá, mantendo uma boa distância e ela agradecia-o em silêncio por isso. Naquela quinta-feira, Cecília se trancou no quarto e o Sr. Morgan estendeu a mão direita para Sofia.

-Venha, minha querida. Quero lhe mostrar uma coisa.

Sofia foi levada até o quarto do Sr. Morgan. Viu o mesmo cobertor sobre a cama que ela tinha visto dois anos depois. Concluiu que não tinha imaginado aquilo, pois em nenhum outro lugar tinha visto aquele cobertor. Porém, o Sr. Morgan era realmente um bom homem e nunca a tinha feito mal.

Até então.

-Você lembra o que você me disse há alguns anos? – perguntou.

Sofia simplesmente olhou para ele, um pouco assustada ao vê-lo trancar a porta.

-Disse que gostava de mim. – disse então o Sr. Morgan, mostrando o mesmo sorriso que mostrara há dois anos atrás.

-É verdade. Eu lembro disso. Gosto de você, Daniel.

-Também gosto muito de você, Sofia. – disse o Sr. Morgan.

Ele pediu para que ela se deitasse na cama. Sofia era menos inocente do que era há dois anos, mas ainda era a garota mais inocente de 15 anos que qualquer um conhecera. Obedientemente, ela deitou-se na cama.

-Você confia em mim? – perguntou o Sr. Morgan.

-Confio! – ela disse, lembrando-se de todas as vezes em que o pai dissera aquilo antes de dar uma surra de cinta nela. O Sr. Morgan então tirou a cinta e ela imaginou que ele bateria nela. Não iria questionar, pois frequentava a casa dos Morgan há uns bons anos. Se ela tinha feito algo ao Sr. Morgan, ela merecia ser punida. O Sr. Morgan jamais faria mal a ela se ela não merecesse. Era o que ela pensava.

-Bem, hoje veremos o quanto confia em mim e o quanto realmente gosta de mim… – disse o Sr. Morgan – Fique virada e arrie as calças.

A expressão no rosto do Sr. Morgan a deixou aterrorizada, mas ela não chorou. Era bastante parecida com a expressão que seu pai tinha no rosto quando batia nela. Mesmo assim ela o obedeceu, ficando de quatro e arriando as calças.

Ouviu a cinta do Sr. Morgan tocar o chão.

Esperava uma surra.

O que viria em seguida era muito pior.

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