O encontro da Gasolina com o Fogo – Parte IV

encontro do passado e do futuro 4

Naquela noite, Michael foi vencido pelo cansaço e acordou às oito da manhã completamente revigorado. Sofia fazia sua bateria de exercícios enquanto ele abria um livro e fazia o café. Ambos fingiam não compartilhar aquele segredo, mas no fundo sabiam dos horrores do mundo. Pela primeira vez, Michael compreendia o sentimento de vulnerabilidade que sempre habitara o coração de Sofia por trás daquela banca de durona.

O Sr. Morgan não era o assunto quando os dois se sentaram na mesa para o desjejum, mas habitava o pensamento de ambos. Será que ele pensava em Sofia também, sentindo-se um bocado esperto por nunca ter sido pego? Será que ria dela? Será que pensava nas atrocidades que cometera com a pobre garota de 15 anos quando estava no chuveiro? Pensava no que fizera quando lia a bíblia ou fazia trabalho voluntário na igreja?


 

O Sr. Morgan já estava acordado há algumas horas. Todos os dias a primeira coisa que fazia era abrir a bíblia, enquanto sua esposa Jane preparava o café da manhã. Daniel Morgan ouvia música em sua cabeça o tempo inteiro e se sentia bastante feliz consigo mesmo. De alguma forma distorcida e diabólica, era mais feliz do que Michael e Sofia juntos. Há aquele velho ditado que retrata bem a condição em que Daniel Morgan se encontrava naquela manhã: “Quem bate, esquece. Quem apanha não”.

Jane Morgan era uma esposa e mãe dedicada e jamais discordava do marido. Se ela pensasse B e ele dissesse A, tudo em que ela pensaria seria A. Educava a filha para que o respeitasse da mesma maneira. Em geral, Daniel era um pai bastante carinhoso e cidadão modelo. Jane se considerava sortuda por tê-lo em sua vida. Evidentemente, havia uma boa parte do passado de Daniel Morgan que não sabia. Deitava na mesma cama em que eventos monstruosos tinham sucedido há nove anos atrás juntamente com o monstro que o cometera, mas provavelmente jamais descobriria isso.

A grande sorte de Daniel Morgan é que ele não precisava trabalhar. Quando seus pais deixaram esse mundo, uma herança bastante gorda caiu em seu colo. Era um homem sortudo e um monstro que nunca tinha sido capturado. Sabe aquelas situações da vida em que perdemos completamente a fé na justiça? Daniel Morgan era um exemplo clássico dessas situações senão a pior delas.

Mesmo assim, o Sr. Morgan trabalhava em uma loja de ferramentas. Seu hobbie era a construção e ele gostava de passar os dias longe da esposa e da filha Mimi, de apenas seis anos. Acima de tudo, o Sr. Morgan sentia-se um homem abençoado. Ele chegou ao trabalho, dando bom dia para todos que ali estavam.

-Veja só… – ele pensava – Todos me adoram. Todos eles.

O tempo todo se sentia como um predador vivendo entre suas presas. Não, ele nunca mais cometeu outro deslize daqueles nos últimos nove anos, embora fantasiasse com isso quase todos os dias. Não deixou de cometer seus pecados por ser um homem mudado ou por ter medo de ser capturado, mas sim porque as garotas dessa época não o atraíam. Ele gostava das garotas puras de alma. Se alimentava do medo delas. Caso se deparasse com uma “nova Sofia” não hesitaria em iniciar novamente seu show de horrores.

Michael entrou na loja de ferramentas e dispensou os outros dois vendedores. Somente o Sr. Morgan o interessava. Quando Daniel Morgan avistou Michael, viu nele um cliente em potencial: bem vestido, com a chave de uma BMW em suas mãos e provavelmente uma carteira bem gorda. Pensou que aquele homem jamais seria capaz de manusear uma chave de fenda. Se aproximou.

-Bom dia! – disse cheio de entusiasmo – O que posso fazer pelo senhor?

Michael se virou e olhou para o velho bem nos olhos, como se estivesse convidando o diabo para brincar de “pique-esconde”. Estenderam as mãos.

-Bom dia! – disse Michael – Estou procurando algo que seja grande o suficiente para me livrar de um tronco bem grande e irritante.

Daniel Morgan era cerca de quinze centímetros mais alto do que Michael. A altura, todavia, não fazia com que Michael se intimidasse. O desconforto que sentiu ao apertar aquelas mãos – instrumentos de tortura, como Sofia se referia a elas – era algo indescritível para Michael. Mesmo assim, mantinha uma expressão serena em suas mãos.

-Qual é o tamanho do tronco? – perguntou o Sr. Morgan.

-Mais ou menos da sua altura. – respondeu Michael, com um sorriso irônico.

-Então um pouco maior que você, não é mesmo? – retrucou o Sr. Morgan, com um sorriso diabolicamente irônico em seu rosto. O Sr. Morgan jamais veria na figura de Michael uma ameaça. Era um homem baixo e de porte médio, com mãos sem calos que revelavam que ele nunca tinha feito um trabalho braçal – Mas me diga, o que lhe incomoda tanto nesse tronco?

Michael refletiu por um momento.

-Na verdade ele já deveria ter sumido há algum tempo, mas por algum motivo… Foi deixado para depois. Não posso mais adiar. O tronco tem que ir! – respondeu enfim.

O Sr. Morgan deu uma risada.

-Muito bem! Eu não costumo deixar as coisas para depois. Se tenho que fazer algo, faço. Se tenho vontade de fazer algo, faço depois daquilo que tenho que fazer. Me acompanhe!

Michael o seguiu. O Sr. Morgan empunhou uma serra elétrica.

-Essa aqui é a mais recomendável para remover um tronco velho e… Como foi que você disse? Irritante?

-Exato.

-Bom, mas isso não irá resolver seus problemas.

-Não vai?

-Bem… Você ainda terá o toco da árvore, não é mesmo? O toco também é irritante?

-Sim. Preciso cortar o mal pela raiz. – disse Michael baixinho.

-Quão grande são as raízes?

-Não sei.

-Não sabe?

Michael balançou a cabeça.

-Bem, você pode cavar ao redor das raízes depois de ter removido o tronco. Em seguida, você corta as raízes com um machado e as puxa. Depois disso fica fácil. É como tirar doce de criança! – disse o Sr. Morgan com um longo sorriso no rosto.

“Como tirar doce de criança” – e o Sr. Morgan certamente sabia algo sobre tirar coisas de crianças.

-Depois, é só preencher o buraco com serragem. É algo bem simples. Pode contratar alguém para fazer isso… Tenho esse amigo que…

-Não! – disse Michael, interrompendo o velho – Tenho que fazer isso eu mesmo.

Foram até o caixa e Michael acertou a conta da serra elétrica. Deu uma última olhada no Sr. Morgan – não parecia fazer o tipo ameaçador, mas havia algo nele sombrio. Será que ele só tinha se dado conta disso porque ouvira a história de Sofia?

O Sr. Morgan observou o homem que não tinha calos nas mãos indo embora com a serra elétrica e voltou ao trabalho. Durante o dia, assobiava a mesma canção que assobiava nove anos antes. Quando cansava de assobiar, chupava balas de canela que tinha que cuspir fora todas as vezes que um cliente em potencial entrava pela porta.

E o resto do dia ocorreu normalmente.

Saiu mais cedo do trabalho para fazer uma surpresa para Mimi e Jane, mas elas não estavam em casa. Estranhou aquilo, como elas ousavam fazer algo sem a sua autorização? Precisariam ser punidas quando voltassem. O Sr. Morgan esquentou as sobras do dia anterior no micro-ondas e sentou-se no sofá. Ligou diversas vezes para o celular de Jane, mas ela não atendera.

Por volta das 21 horas, recebeu uma mensagem em seu celular:

“Fomos embora. Você é um monstro. Você nunca mais verá nenhuma de nós duas. Se entrar em contato conosco, chamarei a polícia”.

O Sr. Morgan refletiu por um minuto, antes de ficar furioso. Voltou a tentar ligar para Jane.

“O número chamado foi desativado. Certifique-se de ter digitado o número certo e tente novamente”.

Ele tentou fazer oito ligações. Nunca, nem mesmo quando cometera seus piores pecados tinha sido chamado de monstro. O que Jane teria descoberto e como teria descoberto? O que ela pretendia fazer? Ir à polícia? Não, não… Ela não poderia fazer isso com o pai de sua filha. E que provas ela teria para fazer alguma acusação contra ele? Provavelmente tinha se irritado com alguma coisa e logo voltaria rastejando.

-Malditas mulheres! – pensou o Sr. Morgan.

Mesmo furioso, dormiu como uma criança de quatro anos. Despertou cedo do sono leve e constatou que Jane e Mimi ainda não tinham voltado. Elas voltariam, cedo ou tarde, não tinham para onde ir e Jane não tinha acesso às suas contas bancárias. Tudo ficaria bem e Jane seria punida em breve.

Leu a bíblia como fazia todas as manhãs, comeu alguns biscoitos e foi para o trabalho.

Ao chegar, seu chefe o chamou para conversar em particular – antes mesmo que o Sr. Morgan pudesse dar “bom dia” para os colegas.

Sentou-se em uma cadeira desconfortável no escritório do chefe que ficava nos fundos da loja.

-Daniel… Sempre tivemos um bom relacionamento e então eu vou ser direto. Teremos que deixar você ir.

-Ir? Como assim? – perguntou o Sr. Morgan.

-Bem, um cliente de nossa loja me procurou ontem e afirmou que viu você colocando algumas ferramentas em sua maleta. – o chefe do Sr. Morgan apontou para a maleta que ele sempre carregava consigo.

-Mas isso é loucura! – afirmou o Sr. Morgan – Na minha maleta carrego apenas alguns pacotes de salgadinho, umas revistas para ler quando vou ao banheiro e algumas pastilhas analgésicas. Que absurdo.

O Sr. Morgan, sentindo-se injuriado, abriu a maleta e despejou todo o seu conteúdo sobre a mesa de seu chefe. Ali estavam os pacotes de salgadinho, as revistas, as pastilhas analgésicas e três chaves de fenda, um medidor e duas alicates.

-O que? Isso não é meu… Juro que eu jamais… Você sabe que eu não preciso disso, Jorge!

Seu chefe deu de ombros.

-Não sei o que houve com você, Daniel. Sempre fora meu melhor funcionário. Se dependesse de mim, eu ignoraria essa indiscrição e continuaríamos trabalhando juntos como se nada tivesse acontecido. O problema é que os outros funcionários acabaram ouvindo a reclamação do cliente e temos que fazer de você um exemplo. Sinto muito. Pode ir pra casa.

-Mas… Mas… – O Sr. Morgan acabou pela primeira vez em muito tempo ficando sem palavras.

Quem teria feito aquilo? Jane? Como poderia?

Foi até Patrick enquanto procurava a porta de saída da loja e perguntou quem tinha sido o cliente que o havia acusado injustamente.

-Eu não acho que você tenha feito algo, Daniel! Sempre foi um cara legal! Mas sabe como é… Bem, o cara que veio aqui era extremamente bem vestido… Ele tinha passado na loja ontem e foi você quem atendeu ele. O Jorge pediu para que fizéssemos um inventário e constatamos a falta dessas peças. Todos fomos “revistados” pelo chefe e como o cliente jurou que tinha visto… Bem, você sabe como essas coisas são.

Sem agradecer ao ex-colega, o Sr. Morgan bateu em retirada. O pomposo homem que tinha comprado uma serra elétrica para remover o “toco irritante” estava mexendo com ele, mas não sabia o motivo. Teria ele alguma coisa haver com o desaparecimento repentino de Mimi e Jane? Quem era aquele homem? O que ele queria?

O Sr. Morgan não tinha se irritado com o fato de perder o emprego pois não precisava dele. Era mais um hobbie do que qualquer outra coisa. Mas algo o perturbou profundamente: Aquele homem com quem esteve um pouco mais de 24 horas antes estava tentando conseguir sua atenção. Bem, agora ele a tinha. E Daniel Morgan fez uma promessa a si mesmo: independentemente dos motivos que o homem tiver para fazer isso, ele pagaria. E muito caro. Michael era agora para o Sr. Morgan… Um tronco bem irritante que precisava ser removido.

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